| Fernando
Braga da Costa por Plinio Delphino
PLÍNIO DELPHINO Psicólogo
varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da "invisibilidade
pública". Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam
apenas a função social do outro. Quem não está
bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social O psicólogo
social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como
gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali constatou
que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são "seres
invisíveis, sem nome". DIÁRIO - Como é que você teve essa idéia? Fernando
Braga da Costa - Meu orientador desde a graduação,
o professor José Moura Gonçalves Filho, sugeriu aos alunos,
como uma das provas de avaliação, que a gente se engajasse
numa tarefa proletária. Uma forma de atividade profissional que
não exigisse qualificação técnica nem acadêmica. Com que objetivo? A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho deles (os garis), e a maneira como eles estão inseridos na cena pública. Ou seja, estudar a condição moral e psicológica a qual eles estão sujeitos dentro da sociedade. Outro nível de investigação, que vai ser priorizado agora no doutorado, é analisar e verificar as barreiras e as aberturas que se operam no encontro do psicólogo social com os garis. Que barreiras são essas, que aberturas são essas, e como se dá a aproximação? Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se tratava de um estudante fazendo pesquisa? Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Chegando lá eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas, os garis sacaram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou Branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o nosso corpo, a maneira como gesticulamos. Os garis conseguem definir essa diferenças com algumas frases que são Simplesmente formidáveis. Dê um exemplo? Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar: "É Fernando, quando o sujeito vem andando você logo sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Porque peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo. Eles não.Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, segurando a pastinha na mão." Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era diferente? Isso
não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia
de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não
era um gari. Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença? Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger. Eles testaram você? No
primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa
térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não
tinha caneca.. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo
de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo,
alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até
o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas
pela metade e serviu o café ali, na Latinha suja e grudenta. E
como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro.
Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que
deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações
ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma
lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento
em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para
assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico
vai se sujeitar a beber nessa caneca?' O que você sentiu na pele, trabalhando como gari? Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar não senti o gosto da comida voltei para o trabalho atordoado. E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou? Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão. E quando você volta para casa, para seu mundo real? Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um Trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma coisa. |
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