Chico aponta um "movimento geral de idiotice"
Compositor brasileiro critica mundo das celebridades em entrevista

Ima Sanches
Em Barcelona

Ele é um sonhador insone, um poeta e um brincalhão. Aos 21 anos, quando estudava arquitetura, começou a compor canções e se transformou em um mito adorado pelas mulheres. Mas, quando fala de mulheres, fala de suas filhas.

"São minhas amigas. Ontem vi Elena em Barcelona, que antes me acompanhava em turnês, mas agora vai com seu marido, Carlinhos Brown. A maior é atriz e almoçamos juntos toda semana, e a outra, filósofa e trapezista, me leva para voar de asa-delta".

Nos anos 80 começou a escrever teatro e romances e também triunfou. "Se me perguntar o que vale a pena, direi que o amor, a amizade, o riso, tudo de belo que vi, as canções que ouvi, os livros que li, um banho de mar, uma partida de futebol, uma água de coco..."

A pedido de La Vanguardia, o compositor resume o atual momento de sua vida:

"Tenho 60 anos. Nasci e vivo no Rio de Janeiro. Estou separado e tenho três filhas, duas netas e meia e um neto: Chico. Sou um democrata que ainda crê na possibilidade de um socialismo democrático. Já vivemos quase duas décadas de idiotice globalizada. Sou ateu. Publico 'Budapeste' pelas editoras Salamandra em castelhano e La Magrana em catalão".

Leia abaixo a entrevista.

La Vanguardia - Uma vida rodeado de mulheres.

Chico Buarque de Holanda - Sim, muitas irmãs, filhas, netas...

LV - O que aprendeu com elas?

Chico - Continuo com a curiosidade intacta, com o mesmo desconhecimento e essa estranha admiração. Sempre me surpreendem, e suas opiniões me interessam mais que as dos homens.

LV - O senhor encabeça a lista de homens mais sexies do Brasil.

Chico - Isso é ridículo, e essa lista é ridícula. Eu tenho 60 anos, não está vendo?!...

LV - Sempre fugiu da fama?

Chico - Não, participei de festivais e busquei o reconhecimento de meu trabalho. Mas depois vem a fama boba, oca, que é a sombra do reconhecimento e que cuida de se o artista está gordo ou com quem vai para a cama. Há 40 anos não era assim.

LV - Como era?

Chico - Veja, estávamos todos bêbados em Ipanema dizendo coisas absurdas, mas nada disso saía na imprensa. Hoje a gente vai assistir a uma partida de futebol e vem o jornalista perguntar como está a partida. Não gosto disso tudo.

LV - Mas é o que vende.

Chico - Há pessoas que perseguem essa fama que não corresponde a nada. É insólito.

LV - Por que teremos chegado a esse ponto?

Chico - Eu nunca vi um movimento geral de idiotice como o de hoje. Mas em meu país, de 15 anos para cá, vem crescendo perigosamente. A idiotice nos rodeia, eu mesmo tenho medo de ficar idiota...

LV - Pense bem...

Chico - Talvez você tenha razão... Tudo seria mais fácil, nada me surpreenderia mais e poderia dar entrevistas sem escrever livros.

LV - ...?

Chico - Sim, sim, eu anuncio que vou escrever um novo livro e passo dois anos dando entrevistas. Depois falo sobre o livro que não saiu... E assim passa a vida. Hoje é possível viver de feira literária em feira literária. Há festivais toda semana em alguma parte do mundo. E agora que finalmente sou escritor...

LV - Custou-lhe três livros.

Chico - Sim, mas agora já me consideram como tal, assim posso viver como um turista literário; certamente conseguiria ser muito mais conhecido como escritor do que sou hoje sem necessidade de escrever mais livros.

LV - Falemos de épocas mais intensas.

Chico - Eu não sou nostálgico, não penso que antes éramos mais bonitos, mais magros e mais felizes, embora tudo isso seja verdade. Veja, não gosto de lembrar nem os anos 60 nem os 70, dos 80 não me lembro e nos 90 começou a idiotice. Nunca concordei muito com o que me cercava. Eu gosto de estar vivo, fazer as coisas no meu ritmo, sem pressões.

LV - Então deve ter vivido muito mal a ditadura.

Chico - No final de 68 começou a verdadeira censura e a perseguição aos opositores do regime, políticos, simples artistas ou fumantes de maconha. Era preciso combater isso, e os artistas mais populares combatemos com a música, por isso perdemos qualidade artística.

LV - O senhor passava a vida na prisão.

Chico - Como todos, mas saía sempre. Só dormi na prisão quando era menor de idade e roubava carros.

LV - O filho de um ilustre historiador e sociólogo roubando carros?

Chico - Sim, roubávamos carros para circular pela cidade, e quando acabava a gasolina os deixávamos; no dia seguinte fazíamos o mesmo, até que me pegaram. Mas durante a ditadura me chamavam continuamente ou vinham me buscar cedo demais e me levavam para perguntar por que havia cantado isso ou aquilo.

LV - Chegou a sentir medo?

Chico - Quem tem cu tem medo, dizemos no Brasil. Recebia ameaças, cartas. Hoje as pessoas no Brasil têm medo de outras coisas e andam cercadas de guarda-costas, sobretudo os famosos, porque ter guarda-costas o torna ainda mais famoso.

LV - O senhor é um ícone da música: poderia ter dois ou três.

Chico - Não gostaria de ser um ícone. Parece horrível. Chegaram a me catalogar de "monstro sagrado". Que medo!

LV - Para quem escreve as letras de suas canções?

Chico - São desafios a mim mesmo: você é formidável, prove isso, diga coisas bonitas. Lembro-me de Vinicius de Moraes, que quando viajava só e tinha sono, cantava canções de ninar para ele mesmo e passava a mão pelo rosto até que dormia. Eu tentei isso e não deu certo.

LV - O senhor tem insônia?

Chico - Sim, por isso sempre trabalho de noite, o que é ótimo para a insônia. Quando consigo dormir, escrevo música nos sonhos. Algumas vezes compus coisas maravilhosas, mas depois percebi que eram de outros.

LV - Por que está há seis anos sem atuar?

Chico - Lancei o disco, fiz um ano de concertos, depois lançaram o disco do concerto do disco e depois o disco do disco do concerto do disco... Depois colaborei em teatro, escrevi o livro e agora estou aqui com você.

LV - Como é sua mãe?

Chico - Tem 95 anos e repete constantemente: "Juízo e alegria!", e eu lhe digo: "Mamãe, ou juízo ou alegria". Meu pai era um sonhador e ela equilibrou seu lado boêmio, impunha a disciplina mas com muito senso de humor, com isso: com juízo e alegria. Sete filhos!

LV - O que significou para o senhor pôr filhos no mundo?

Chico - É formidável. Quando a primeira nasceu eu tinha 24 anos, foi quase uma irresponsabilidade. Mas as três são melhores que seu pai, e creio que se cada um de nós pudesse dizer isso, se Bush o dissesse, por exemplo, em 30 anos teríamos um mundo melhor.

 

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves