17-06-2004

CABRA MARCADO


Janeiro de 2001

por Marina Amaral

 

Não são apenas políticas as dificuldades que enfrenta o governador João Alberto Capiberibe (PSB) em seu segundo mandato no Amapá. Desde o começo do ano, o governador luta contra uma tentativa ilegal de tirá-lo do cargo por parte da Assembléia, liderada por três deputados indiciados por ligações com o crime organizado, contrabando e tráfico de drogas pela CPI do Narcotráfico. A presidente do Tribunal de Contas também foi indiciada e, mais grave, o Tribunal de Justiça aceitou o pedido da Assembléia para formar a comissão que vai julgar o impedimento do governador, apesar de a votação ter sido comprovadamente ilegal e de o próprio relator indicado pelo Legislativo estar entre os indiciados da CPI. Como se não bastasse, Capiberibe vem sofrendo ameaças de morte que o obrigam a andar cercado de seguranças 24 horas por dia.

Desde quando o senhor vem enfrentando tentativas de afastamento do cargo?

Já nas eleições, além de enfrentar o PFL, o PMDB, o PPB, tive de enfrentar o PTRE, “Partido do Tribunal Regional Eleitoral”. O deputado Sérgio Barcellos, que faz parte da oligarquia mais atrasada que o Rio de Janeiro já produziu e mandou para o Amapá, entrou com duas ações no TRE para tentar barrar minha reeleição. Na primeira, o tribunal me condenou à inelegibilidade, mas recorri ao TSE e ganhei. A outra votação conseguimos suspender antes das eleições, mas, no início do ano 2000, quando vários dos integrantes desse grupo que pretende me afastar do governo se sentiram pressionados pela CPI do Narcotráfico, o processo - uma manobra escandalosa para me tirar fora do pleito e depois do governo - foi retomado. É bom dizer que desde que sou governador passei a acumular uma centena de processos, justamente por essa perseguição do Legislativo apoiado pelo Judiciário. Há uma seqüência de casos em que o Judiciário, quando não é o protagonista principal, é coadjuvante no sentido de tentar impedir a governabilidade. É o caso dessa crise que estamos vivendo hoje: a Assembléia tomou uma decisão ilegal que me afasta do governo - o processo já tinha sido anulado pelo Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Justiça do Estado aceitou o documento mentiroso da Assembléia.

Por que a perseguição da Assembléia e do Judiciário?

Desde o começo do meu segundo mandato estão tentando me impedir de governar: tomei posse em janeiro de 1999, em julho a Assembléia mudou a lei de diretrizes orçamentárias e o orçamento do ano. Eu recuso, vou ao Supremo e ganho uma liminar mantendo o orçamento de 1999. Isso já criou um problema com um grupo na Assembléia que preferia que o dinheiro público os beneficiasse. E coincidiu com a instalação da CPI do Narcotráfico, em julho, para a qual pedimos que viesse fazer investigações no Estado, pois já tínhamos informações da existência do crime organizado no Amapá desde 1992. O grupo que deseja me afastar do governo não queria que a CPI fizesse investigações no Amapá por motivos que agora estão bem claros: há três deputados do Amapá indiciados pela CPI do Narcotráfico - Paulo José Ramos, Jorge Salomão e Fran Jr., este afastado da presidência da Assembléia por uma ação movida pelo Ministério Público comprovando o desvio de 16 milhões de reais na casa. Aliás, essa ação mostra bem como age o Judiciário no Estado: o pedido de afastamento de Fran Jr. já havia sido enviado ao Tribunal de Justiça e o juiz não concedeu. Foi depois que o Ministério Público entrou junto ao tribunal que um desembargador aceitou o pedido de afastamento. E esse juiz (Constantino Tork Brahuna) que não havia concedido o pedido é o mesmo que há poucos meses chamou a imprensa toda, no escritório do advogado do presidente da Assembléia, Fran Jr., e disse que estava tirando a toga para denunciar o governador, uma denúncia caluniosa de desvio de recursos da previdência em que provamos que ele próprio, como conselheiro, havia aprovado a contabilidade e o balanço da previdência. E o que acontece quando o presidente da Assembléia é afastado? O presidente do Tribunal de Justiça, que já havia reconhecido a ilegalidade do pedido de meu afastamento feito pela Assembléia, decide nomear a comissão processante - cinco desembargadores e cinco deputados - para me julgar. Ele aceitou o documento mentiroso do presidente da Assembléia afirmando que meu afastamento se deu pela votação de dois terços dos deputados, enquanto é público e notório que apenas catorze deputados votaram, e não os dezesseis exigidos por lei. E é isso que provoca essa crise sem precedentes, porque, à medida que ele nomeia desembargadores para formar um tribunal de exceção, ele rasgou a Constituição.

O senhor está dizendo que essa perseguição está associada à participação do governo do Amapá na CPI do Narcotráfico?

Isso tudo tem sentido. Entre meus opositores estão esses três deputados indiciados pela CPI do Narcotráfico e a presidente do Tribunal de Contas, Margareth Salomão, também indiciada pela CPI. E as dezenas de processos que esse grupo move contra mim são bem acolhidas pelo Judiciário, que, por exemplo, concede liminar exigindo o repasse de dinheiro público, de dinheiro do Estado, para o deputado Jorge Salomão, um dos indiciados pela CPI do Narcotráfico. E mais: o juiz manda prender o presidente da Imprensa Oficial, manda para a penitenciária, porque se recusou a publicar um ato assinado pelo deputado Salomão, sendo que a Imprensa Oficial nem tem a obrigação de publicar atos administrativos da Assembléia. E, quando mando retirá-lo da penitenciária para guardá-lo preso em um local adequado, a juíza manda prender o diretor da penitenciária porque facilitou a fuga do preso!

O Judiciário está comprometido com esse grupo acusado pela CPI do Narcotráfico?

Até agora não houve nenhuma acusação em relação ao envolvimento direto de juízes. O que me leva a crer em uma certa ingenuidade de alguns juízes, em relação a outros que estão politicamente comprometidos. Essa é uma questão política. O fato de não terem conseguido brecar a minha reeleição em 1998 criou uma certa animosidade em parte deles. Acusado pela CPI há um desembargador, o Douglas Evangelista, que foi citado por duas pessoas ouvidas, e que era muito amigo - não saía da casa dele - do suspeito número 1 de comandar o tráfico no Estado, o empresário Sílvio Assis, este já indiciado. Mas acontecem coisas reveladoras: há pouco tempo, um grupo de juízes fez uma manifestação contra mim em que estavam presentes o Jorge Salomão, o deputado Paulo José, também indiciado pela CPI do Narcotráfico, e que é o relator daquela comissão processante contra mim formada por desembargadores e deputados. Vejam só quem vai julgar o governador! Então, repito: não há nada que vincule o Judiciário ao narcotráfico, no entanto essa ação da Justiça acaba favorecendo o grupo que está sendo indiciado pela CPI do Narcotráfico.

Há alguma relação entre a corrupção de alguns setores públicos e o crime organizado?

Acho que foi a corrupção com dinheiro público que criou o crime organizado, o narcotráfico é um fenômeno recente no Estado. Desde o meu primeiro mandato tenho buscado a maior transparência e maior eficiência de controle do dinheiro público por parte da sociedade civil e isso atrapalhou muito a vida de quem vivia da corrupção. Esse Sílvio Assis chegou a ser o homem mais poderoso no Estado. Ele reunia metade da Assembléia na casa dele. Tinha dia em que ele despachava no gabinete do ex-procurador de justiça, Manuel Brito. E tinha toda uma relação de negócios com o Tribunal de Contas, a CPI levantou uma negociata dele, com impressos para o tribunal, de 4 milhões de reais caracterizada como lavagem de dinheiro.

O senhor se sente ameaçado fisicamente? Esses grupos são violentos?

Faz tempo que não acontece nada assim. Tivemos um seqüestro em 1992 de dois vereadores, um recebeu três tiros mas escapou vivo, era do PT. Eu era prefeito na época e fizemos um imenso barulho: vigília permanente na prefeitura, atos públicos, e aí não houve mais violência. O que tem é ameaça pesada de morte contra mim e a procuradora de justiça que investigou o presidente da Assembléia e mandou o Sílvio Assis para a cadeia. Inclusive, há duas semanas ela veio conversar comigo e disse: “Olha, vou contar uma coisa que eu não queria porque não queria lhe preocupar. Tive a informação de que um grupo ligado ao Sílvio Assis estava preparando uma emboscada para matar nós dois em uma cerimônia pública, para mostrar quem tem o poder aqui. Para dizer: vocês não se metam onde não são chamados”. Aí até perguntei: “E a senhora não denunciou isso?” Ela disse: “Não, não tenho como provar”. Eu digo: “Não precisa provar, a senhora denuncie. Porque denunciar inibe a ação dessas pessoas”. Aí denunciei publicamente. Porque não vou ficar esperando que eles me matem. A gente corre muito risco à medida que está apurando corrupção, crime organizado, contrabando e tráfico. O Jorge Salomão é acusado de fazer a conexão Suriname da cocaína, e de onde ele tirou o dinheiro para virar narcotraficante? A droga vem da Colômbia ou da Bolívia, passa pela Amazônia, onde há 7.000 pistas de pouso clandestino, os aviões abastecem e levam a droga, jogam a carga em regiões isoladas e um helicóptero do Suriname recolhe a droga. Há três anos, um pacote desses caiu em uma área indígena do Oiapoque, os índios pegaram a carga e chamaram a polícia, que fez uma grande apreensão. Uma partida de 200 quilos de cocaína, para fazer esse trajeto até chegar ao Suriname, varia entre 6 e 7 milhões de reais. Quem é que tem esse dinheiro? De onde veio? Eu acredito que a acumulação de dinheiro que eles fizeram com a corrupção acabou levando ao narcotráfico.

O senhor teme por sua vida?

Por isso, desde o começo da CPI ando com seguranças 24 horas por dia. Mas vamos continuar pedindo o apoio do governo federal para combater o narcotráfico, que é função da Polícia Federal. E tem outra coisa: se esses deputados não forem cassados, se os envolvidos com o crime organizado no Tribunal de Contas não forem afastados, serei obrigado a pedir intervenção federal no Amapá. Porque não é possível governar um Estado em que o presidente da Assembléia e a presidente do Tribunal de Contas estão envolvidos com o crime organizado e o tráfico de drogas.

De quem o senhor tem recebido apoio?

Da população, principalmente; de metade da Assembléia - os doze deputados do “bem”, porque a gente já está classificando assim; de parte da imprensa local, não aquela comprometida, como é o caso da rede de televisão do deputado Sérgio Barcellos; e também da grande imprensa nacional. Quando votaram meu afastamento, eu estava em Paris e, quando voltei, houve um ato público que reuniu Lula, Erundina, Aldo Rebelo e 8.000 pessoas na praça. E recebi apoio de organizações da sociedade civil do Brasil inteiro.

E do governo federal?

Do governo federal não temos recebido muito apoio. Inclusive, somos nós que estamos ajudando a Polícia Federal lá no Estado a se equipar. E a minha preocupação é com os deputados da CPI do Narcotráfico. Se não houver uma reação muito forte da sociedade e do governo federal, esses deputados vão ter problemas no futuro. Concretamente, se não houver apoio, eles podem sofrer atentados. Quanto a mim, sei que a única coisa que me garante hoje é o apoio da população.



17-06-2004

Revista Caros Amigos

Entrevista explosiva

João Capiberibe

Cassado por que, mesmo?

É um caso (escandalosamente) inédito: um senador, João Capiberibe, e uma deputada federal, Janete Capiberibe, têm os mandatos cassados pelo TSE por uma suposta compra de dois votos, no valor de 26 reais cada.

O autor da denúncia, Gilvan Borges, que já foi senador, fabricou “provas” e tem no currículo, entre outras coisas, uma acusação de nepotismo quando empregou a mulher e a mãe em seu gabinete no Senado, acusação à qual respondeu assim: “Uma me pariu e a outra dorme comigo”. Dispensem-se maiores comentários e vamos à entrevista. Exemplar, por sinal.

Entrevistadores: Natalia Viana, Marina Amaral, Débora Pivotto, João de Barros, Flávio Cannalonga, José Arbex Jr., Wagner Nabuco e Sérgio de Souza. Fotos: Elena Vettorazzo.

Trecho 1

Natalia Viana - Sempre começamos perguntando da infância do entrevistado...
Nasci na ilha do Marajó, na beira de um rio e onde não tinha absolutamente nenhum vestígio da sociedade industrial. Não tinha energia, não tinha escola, uma coisa isolada mesmo. E cresci ali até os 6 anos...

Sérgio de Souza - Seus pais?
Meu pai era um sujeito muito especial, era poeta, músico, trabalhava em Belém como condutor de bonde, e resolveu se embrenhar na floresta depois de casar com a minha mãe, que também vivia em Belém, e os dois foram para Marajó, onde eu nasci. Quando tinha 7 anos fomos morar em Macapá, para eu estudar, porque a minha mãe achava que tínhamos todos que estudar. Meu pai não, estava absolutamente conformado com a vida, eu já sabia nadar, subir no açaizeiro, pescar, então já estava pronto para a vida.

Marina Amaral - Eram muitos irmãos?
Sete. Macapá nos anos 50 devia ter 30.000 habitantes. E a lembrança mais fascinante que guardo é a imagem da cidade iluminada, aquilo pra mim foi um total deslumbre. A gente ia de barco a vela, a viagem durava uma semana. E estudei lá até os 17 anos.

Natalia Viana - Morava lá a família toda?
Todo mundo, e ainda tinha uns agregados, que chegavam do interior e iam ficando na nossa casa. Uma família pobre, comecei a trabalhar aos 7 anos, logo que cheguei, vendia revista, jornal, loteria, frutas, eu era um excelente vendedor. E fiz o curso primário em Macapá, no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Um dia fui lá, quando era governador, ver meus boletins. Eu era um péssimo aluno, minhas notas não eram lá essas coisas. Enfim, foi uma vida muito pobre, morávamos na Baixada, uma favelona, sem água, sem luz também, e conheci um padre - eu não tinha religião, não sabia rezar absolutamente nada, meu pai era ateu, minha mãe oscilava entre o catolicismo e o protestantismo -, e o padre me convidou para fazer um leilão. E eu fui, imagina, eu vendia o que pintasse na minha mão. Fui gritar o leilão do padre, ele gostou muito de mim, perguntou se eu queria ir para o seminário. Eu digo: “Na hora!”

Sérgio de Souza - Você estava com que idade?
Estava com 10 anos. Fui para um seminário, que era numa ilha, com padres italianos. Não suportei, eu era menino de rua, chegar numa disciplina de acordar às 6 horas, tinha que rezar, eu não sabia rezar. Aí, inventei uma doença pra voltar. Então me meteram num hospital, cuidado pelas freiras, e os médicos encontraram uma doença - me tiraram o apêndice!... Em compensação, nesse período me ensinaram a rezar. Quando voltei para o seminário, passei a ler a Bíblia e a me interessar - os padres tinham uma biblioteca excelente - pela história dos santos. Sem nenhuma vocação para ser santo. E fiquei três anos no seminário. Então, reconheci não ter mesmo a menor vocação para padre, e pedi para sair. Depois de concluir o 1º grau, fui para a Escola Normal, conheci Janete...

Marina Amaral - Desde essa época?
Sim, e passamos a fazer militância juntos no movimento estudantil. Época da ditadura, os grêmios eram proibidos, quando cheguei ao 2º ano fui para Brasília, estudar na Escola Agrícola. Passei quinze dias na escola, não agüentei, fui embora. Para Belo Horizonte.

Sérgio de Souza - Estudar lá?
Sim, fui em 1966, fiquei até 1968. E aí acompanho as primeiras manifestações de rua, um movimento estudantil muito forte...


Trecho 2

Sérgio de Souza - Você sofreu também tortura física?
Também. “Telefone”, todo tipo de tortura que você possa imaginar, ninguém passava incólume. Daí, depois de 110 dias preso ali, me transferiram para o presídio São José, um prédio do século 18 que havia sido convento, e fui colocado com os presos comuns. Primeiro fui levado para uma torre, torre de igreja mesmo, com sino, e ali me pelaram a cabeça, me desnudaram, e tocaram aquele sino. Aquele negócio ficaria na minha cabeça para sempre. Toda vez que tenho um momento de risco, ouço o tal do sino. No dia em que o TSE cassou o nosso mandato, a primeira coisa que veio na cabeça foi o sino. Impressionante como me marcou. E a cela onde eu ficava tinha 95 presos, dormiam todos em redes, um cruzado em cima do outro. Um calor de 40 graus, uma coisa insuportável, e, como eu já tinha sofrido tortura na fase de interrogatório, terminei ficando muito mal. Cheguei a pesar 51 quilos, era só osso. Então, Janete consegue que me transfiram para um hospital. Passei um mês e meio lá e, quando já estava bem melhor, começamos a articular a fuga do hospital. E terminei fugindo, realmente. Criamos um fisiologismo, um clientelismo com os soldados, e eles relaxaram bastante a guarda. A Janete trouxe uma bata de médico, óculos, sapato, e terminei saindo pela porta da frente do hospital. Sozinho. No caminho, as enfermeiras ainda davam “boa noite, doutor”, era um hospital grande. Eu, Janete e Artionka, que tinha dez meses de nascida, pegamos um barco desses que circulam clandestinamente na Amazônia, são milhares até hoje, e fomos até Santarém, oito dias de viagem. Depois, Manaus, mais cinco dias, pegamos um barco para Porto Velho. Tem uma história fascinante: esse roteiro quem traçou para mim foi um sujeito que tinha feito um assalto com revólver de brinquedo em Manaus...


Trecho 3

Sérgio de Souza - Como você montou seu time, seus secretários?
Criei uma escola de governo, um centro de informação com desenvolvimentos humanos, e treinávamos permanentemente e capacitávamos as pessoas, era muito intenso, fizemos parcerias com as universidades e levamos gente da Unicamp, da USP, da Escola Paulista de Medicina, fizemos uma parceria com os franceses na área de educação e pesquisa.

José Arbex Jr. - Danielle Mitterrand esteve várias vezes com você lá, tem até um instituto...
Tem um instituto de línguas e, na verdade, eu já sabia que não teríamos nenhuma possibilidade de obter apoio do governo federal, então fizemos uma parceria ampla com a Guiana Francesa e com a França. Fundamentada nas teses do desenvolvimento sustentável, e isso terminou nos ajudando enormemente. A questão com a Guiana evoluiu tanto, que em 1997 articulamos um encontro do presidente Chirac com o Fernando Henrique lá na fronteira, e esse encontro aconteceu em São Jorge, a imprensa aqui do sul não deu muita cobertura.


Trecho 4

João de Barros - Pode-se encontrar algum paralelo entre o julgamento de vocês dois e o julgamento do Roriz, governador do Distrito Federal?
Acho que usaram dois pesos e duas medidas, não tenho a menor dúvida de que ali o que era prova contundente se transformou em “indícios”, e o que era suposição me condenou. Então, por mais que um jurista diga que são dois processos diferentes, um envolvia 52 reais e o outro 40 milhões de reais desviados de recurso público e tudo comprovado com fotografias, com documentos, e no nosso julgamento só tinha a palavra das duas testemunhas. Eu disse que eles estão cassando um e levando dois, porque a deputada Janete foi a mais votada em toda a história do Estado. Teve quase 10 por cento dos votos proporcionais, o que é muito. Um dos argumentos dos acusadores é que os dois votos que “compramos” tinham influenciado a eleição, porque a diferença entre a minha votação e a do Gilvan era de 4.500 votos. Como a diferença era muito pequena, poderia ter tido alguma influência. Só que a Janete teve perto de 24.000 votos, o segundo colocado teve a metade. Isso significa que ela está sendo cassada sem nenhuma razão objetiva. Simplesmente porque se elegeu pelo PSB, junto comigo. Até parece uma atitude machista: “Vamos cassar o casal”. Como se ela não tivesse uma trajetória de luta política. Ninguém no Amapá admitiu a cassação. A contradição entre os dois julgamentos, o nosso e o do governador Roriz, terminou causando um choque na opinião pública, na Câmara e no Senado. Conseguimos ser mantidos nos mandatos por uma liminar da ministra Ellen Gracie. Até que se publiquem os acórdãos. Caso a gente não consiga uma revisão da decisão no TSE, então cabe um recurso extraordinário ao Supremo. E, por último, pela disposição dos senadores e dos deputados, pode haver também um processo de anistia. E tem ainda o aspecto que, para os eleitores que votaram na gente, a cassação é inaceitável, é falta de respeito com a decisão deles. Então, vários grupos no Amapá decidiram produzir uma reafirmação do voto. E está correndo um abaixo-assinado cuja meta é chegar a 98.000 assinaturas, exatamente a quantidade de votos que nós dois tivemos na urna. Foi um choque tão grande, que as pessoas estão comovidas. Tenho ido a Macapá, e também me comovo com as pessoas. Elas não admitem que o voto delas está anulado. Porque a decisão do TSE é de anular todos os votos. Pelo menos até que saia o acórdão, pode ser outra a decisão. Mas o povo está disposto ao seguinte: se confirmada a cassação, a Janete vai ser prefeita e eu vereador de Macapá. É uma decisão de nos devolver esses mandatos. Acho que porque uma das características do nosso trabalho político é exatamente a preocupação com o bem público. E porque é inadmissível, pelas regras do jogo político, alguém ser intransigente com composições, com determinadas cumplicidades. E outra coisa que não se aceita é que eu tenha sido governador durante tanto tempo e não tenha me “prevenido” - vocês sabem o que isso significa, não é? Acumular uma grande quantidade de dinheiro para poder se defender dos processos. Se perdermos o mandato, vamos ficar desempregados, não temos nenhuma aposentadoria. Existia aposentadoria do governador, eu digo: imagina um sujeito com 50 e poucos anos se aposentar... e acabei com ela. E não temos nenhuma poupança, então isso tudo para os padrões políticos brasileiros, é inaceitável.

José Arbex Jr. - Você falou com o Lula e o Zé Dirceu?
Falei. Eles ficaram solidários, e preocupados...

José Arbex Jr. - Mas deram declaração pública sobre o caso?
Não. Até porque há essa questão da governabilidade, da relação harmônica entre os poderes. Tenho uma visão um pouco diferente, no meu Estado, harmonia entre os poderes é prejuízo para a sociedade.


Trecho 5

Sérgio de Souza - Como está o papel da mídia nessa história?
Pela minha pouca experiência e a convivência que estou tendo com jornalistas no plano nacional, há uma dificuldade de acesso à informação dos próprios jornalistas. Vi nesse imbróglio com o jornalista americano uma certa pressa na produção da notícia. Perguntei aos jornalistas: “Vocês leram o artigo?” “Não.” Para os senadores, fiz a mesma pergunta: “Vocês leram o artigo? O que foi que ele disse?” Ninguém sabia. Como é que está todo mundo falando, se ninguém sabe o que ele falou?

José Arbex Jr. - E, no seu caso específico, como a mídia está se comportando?
Eu diria com uma compreensão muito grande, com exceção de São Paulo, em que teve pouca repercussão.

José Arbex Jr. - Por quê?
Acho que há um preconceito paulista em relação a um agente político lá da margem esquerda do rio Amazonas.

 


22-05-2003

UM NOVO MODELO PARA A AMAZÔNIA


Jornal Página 20 - Senador João Capiberibe, como o Sr. vê o desenvolvimento da Amazônia nos próximos anos?

Senador João Capiberibe - ( PSB - Amapá ) - Vejo com esperança e otimismo, considerando que o novo Governo significa uma crucial mudança política em nosso País. Creio que estamos vivendo uma nova etapa em nossa história social onde existem as condições para uma revisão crítica do antigo “modelo” de desenvolvimento da Amazônia. É fundamental conciliar o desenvolvimento econômico-social com a preservação ambiental e a justiça social. A população da Amazônia deve tomar seu destino em suas próprias mãos.

Jornal Página 20 - Qual deve ser, então, esse novo “modelo” de desenvolvimento para a Amazônia?

Senador João Capiberibe - Está muito claro tanto para os estudiosos da questão da Amazônia e, especialmente para os amazônidas, que esse destino está cultural e economicamente ligado à preservação e exploração da riqueza ambiental, na ótica do desenvolvimento sustentável. Precisamos dizer claramente: a floresta não pode ser simplesmente derrubada, mas também não deve restar intocável. Devemos apoiar políticas de valorização e exploração da biomassa florestal, sem destruí-la.
O que nós queremos dizer com isso? Queremos dizer que é urgente tomarmos atitudes políticas decisivas para mobilizar esse processo.

Jornal Página 20 - Quais seriam essas políticas?

Senador João Capiberibe - A primeira atitude política é entender e somar na formulação dessa política de crescimento sustentável e gerador de renda a cultura popular. O conhecimento milenar do habitante da Amazônia não pode ser ignorado como tem sido até agora e relegado a simples “folclore”. Afinal, também somos uma sociedade complexa, além de 180 povos indígenas. Quem pensa assim, de certa forma e inconscientemente também justifica a biopirataria, por exemplo.
Uma segunda atitude política é investir fortemente na pesquisa da biodiversidade amazônica para transformá-la em bens de consumo duráveis e não-duráveis, agregando valor e conquistando mercados. É o caso da indústria moveleira, dos fitofármacos, e do setor de alimentos, para ficar em apenas algumas áreas.
De modo geral, podemos dizer que o desenvolvimento econômico e social da Amazônia deve estar orientado pelo ineditismo - é preciso olhar a realidade local com os olhos do caboclo, com os olhos do índio e com os olhos do pesquisador científico. Soluções “de fora” não vão nos levar a nada, a não ser perpetuar o que já se esgotou, ou seja, um modelo predatório e concentrador de renda com base na monocultura, na cultura do “gigantismo” que se viu nos mega-projetos de décadas passadas, na transplantação de “ilhas” de industrialização artificial. Enfim, esse velho modelo resultou trágico para a Amazônia.
O Programa de Desenvolvimento Sustentável ( PDSA ) que colocamos em prática durante meu governo no Amapá e o projeto do governador Jorge Viana, aqui no Acre, a quem visitei recentemente, são exemplos concretos, corajosos e claros desse novo modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia. A experiência prova que é possível agir agora e construir um futuro digno. Nós merecemos.