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Ab’Sáber
faz duras críticas à política ambiental de Lula
Geógrafo condena a falta de planejamento para combater
o problema do desmatamento
São
Paulo - Aos 81 anos, o geógrafo Aziz Ab’Sáber
afirma que nessa idade não poderia fazer tantas viagens à
Amazônia.
"Mas faço e farei até morrer."
E é dele, um dos principais estudiosos da maior floresta tropical
do mundo, que vem duras críticas à política ambiental
do governo Lula. Não só pela recente divulgação
de mais um recorde na taxa de desmatamento, mas também pela falta
de planejamento para combater o problema.
"Como pensar otimistamente nos próximos tempos se tudo está
em dinâmica desastrosa, devastadora e à custa de uma ignorância
generalizada."
Nessa entrevista, o professor da Universidade de São Paulo chama
atenção para o "governo paralelo" que se criou
na Terra do Meio, no sul do Pará.
Há algum tempo, visitou a região e viu como fazendeiros
e madeireiros desfilavam durante horas pela Transamazônica com bandeiras
em grupos numerosos para amedrontar a população.
"Aqueles mesmos que dizem a propriedade é minha, e eu faço
com ela o que quiser, como quiser e quando quiser pensando já no
futuro do processo devastador." Para Ab’Sáber, o governo
precisa agir já.
O
Ministério do Meio Ambiente (MMA) justifica que a taxa de desmatamento
foi contida, já que poderia ter sido muito maior porque houve um
ano de crescimento econômico da ordem de 5%. O sr. se convence com
a explicação?
Não posso discutir as desculpas e os argumentos que o MMA tem em
relação ao gravíssimo problema da ampliação
da devastação da Amazônia. Eu fico psicologicamente
muito arrasado de falar da Amazônia na atual conjuntura. Quem não
tem ética com o futuro e capacidade de pensar o futuro em diferentes
níveis e profundidades de tempo, deixa que a devastação
aconteça. E aí ficam justificando: "Ah, estatisticamente
aconteceu isso, por isso." Só que o "por isso" é
a conjuntura da economia de fazendeiros, madeireiros e agricultores em
ganhos rápidos e imediatos e o futuro que se dane.
Onde o governo erra nessa questão?
Em primeiro lugar há que se pensar num governo capaz de ter um
pensamento e um conjunto de estratégias para as questões
nacional, regional e setorial. No caso do Brasil, estamos tendo um esforço
para pensar o internacional, mas com excesso de visitas e pouco cuidado
com o regional. Acharam que era possível fazer viagens custosas,
levando um grande número de pessoas para conhecer outro país
distante, que pode ou não ofertar vantagens econômicas. Enquanto
isso deixam acontecer tudo o que as circunstâncias internas permitem.
Gostaria de dizer também que os membros do segundo escalão
do governo Lula deveriam ter um melhor conhecimento com os fatos relacionados
à tropicalidade. No caso da Amazônia, é uma área
quente e úmida e está sob aquilo que muitos pesquisadores
chamam de invasão capitalista. Os cientistas, jovens geógrafos
e promotores sabem que nosso tempo todos os espaços viraram mercadorias.
É preciso pôr isso na cabeça dos governantes brasileiros.
Houve uma invasão permitida pela ignorância dos governos
que sucederam desde o início da construção da Belém-Brasília,
depois a Transamazônica e as outras estradas que rasgaram o coração
das selvas.
Quem vem promovendo a invasão da floresta?
Foram vários ciclos sucessivos. Primeiro a agropecuária,
depois as madeireiras, logo agora a soja e no intervalo de tudo isso os
negócios amazônicos. Um político que enriqueceu muito
rapidamente e outros grupos que estão até nos governos estaduais,
filhos deles, eles justificam suas riquezas pelos negócios da Amazônia.
E o governo não tem noção do que seja isso. Está
acontecendo no centro sul do Pará, naquela chamada Terra do Meio,
um verdadeiro governo paralelo por parte dos fazendeiros, madeireiros,
dos que estão preocupados com devastação para eventual
produção da soja.
O governo tem medo, interesses particulares ou não sabe
como atuar em áreas de conflito como no sul do Pará? O que
fazer na Terra do Meio?
No Brasil só se esboçaram dois Estados paralelos, perigosíssimos
e que precisam de uma atenção estratégica. A região
do narcotráfico no Rio de Janeiro e a Terra do Meio. Não
posso dizer (o que fazer). Se disser, alguém vai dizer que está
tudo errado. Eles (o MMA) só respeitam o planejamento estratégico
pagando e pagando muito para imbecis. Não vou dizer quais são
as soluções, porque não adianta coisa nenhuma perante
o ideário vigente na administração federal.
Este governo criou 7,7 milhões de hectares de unidades
de conservação, boa parte para frear a fronteira agrícola.
É uma boa solução ou só vai criar novas frentes
em outras partes da Amazônia?
O grande problema que o governo não entendeu é o seguinte:
no caso de algumas reservas particulares que foram pensadas em termos
de uma exploração auto-sustentável, a situação
mudou muito porque elas estavam inseridas dentro de um corpo territorial
contínuo. Com a devastação que houve, aqui e acolá,
a coisa mudou muito. As reservas extrativistas que tentaram ser organizadas
sozinhas não valem muito. Nem para a economia regional, nem para
o futuro.
Qual a sua avaliação da equipe do MMA?
Não posso dizer mais para um jornal da importância do Estado,
porque teria de me referir a nomes de pessoas, a ignorantes que foram
colocados dentro do MMA, e não conhecem a Amazônia e ficam
projetando coisas. Fazer concessões de Flonas (Florestas Nacionais)
para ONGs estrangeiras... Deus meu, que ignorância. Alugar por 30
ou 60 anos é uma das mais terríveis propostas contra a soberania
brasileira na Amazônia. Poucos dos que fizeram essa estupidez de
propor aluguel de florestas nacionais para particulares de qualquer instância
estarão vivos para responder por seus projetos esgarçados.
Qual é o risco?
Em 30 ou 60 anos, as Flonas poderão ser exploradas em qualquer
nível sem que haja gerenciamento real, da maneira pela qual vão
trabalhar explorando madeiras e podendo explorar tudo aquilo que fizeram,
porque alugaram e pagaram. Estamos numa situação desesperadora.
A conjuntura internacional está de olho numa região de um
país imenso como é o Brasil e parece que os governantes
não têm idéia disso.
Até que ponto a chamada internacionalização
da Amazônia o preocupa?
Lá fora, quando qualquer membro do governo faz algumas pressões
no sentido de ter alguma presença internacional, eles respondem
com as seguintes frases: "O governo brasileiro não tem condições
de gerenciar a Amazônia." Isso é muito triste, muito
dramático. Se não houver um nível de esclarecimento
e conhecimento integrado, se não existir uma política estratégica
para gerenciar a Amazônia e impedir qualquer embrião de Estado
paralelo, estaremos com a nossa soberania ameaçada permanentemente.
O governo tem cerca de 30 grandes projetos de infra-estrutura
na Amazônia legal. O sr. teme os impactos dessas obras na região?
Como construir isso linearmente esquecendo as regiões que formam
o todo? Existe uma preocupação com velhos projetos no Brasil.
Primeiro a transposição das águas do São Francisco.
Dizem: "Vai resolver o problema do semi-árido brasileiro."
Sobre isso não digo mais nada, porque já chamei a atenção
rigorosamente científica e as respostas são rigorosamente
políticas. Outro projeto é fazer a ligação
do Acre com o Pacífico. Projeto mal-estudado por todos e no presente
momento desastroso, porque seria apenas uma rota da madeira para o Oriente.
Falta ética com o futuro...
Essa ética com o futuro tem de ser melhor colocada na cabeça
dos governantes, do primeiro, segundo e terceiro escalões. Houve
um rapaz que está dentro do MMA que perguntado numa TV se conhecia
a Amazônia, porque estava forçando o problema dos aluguéis
das Flonas e da concessão para ONGs estrangeiras, ele respondeu
assim: "Ah, eu fui até o Amapá." A Amazônia
com 4,2 milhões de quilômetros quadrados, e a justificativa
dele é que foi até o Amapá? Por acaso estava pesquisando
com pessoas muito importantes que queriam conhecer um pouco da Amazônia,
dos grupos indígenas remanescentes do Amapá, e vi onde essa
pessoa esteve. Era uma reunião de ONGs. É assim que se conhece
a Amazônia?
O sr. tem alertado o governo?
Um dia a dona Marina (Silva, ministra do MMA) teria dito, segundo me contaram,
que ela precisava forçar o encaminhamento da concessão do
aluguel de Flonas, e alguém disse que precisavam consultar o doutor
Aziz. Aí ela disse: não dá tempo de convencer o doutor
Aziz. É assim que funciona assim lá em cima. Não
posso ficar falando essas coisas, porque não tenho vontade de citar
nomes. Se fosse citar nomes, meu Deus, (o secretário de Biodiversidade
e Florestas, João Paulo) Capobiancos, Tassos Rezendes (gerente
de projetos) e muitos outros que estão lá. E dentro do Ibama
grandes problemas também, apesar de que o presidente do Ibama (Marcus
Barros) é alguém que sempre respeitei muito. Não
existe política estratégica dentro do Ibama capaz de gerenciar
todo esse caos.
O sr. tem mais preocupação com a pressão
de grileiros, madeireiros e fazendeiros ou a de ONGs?
Tenho impressão de que as ONGs deixaram de ser organizações
não-governamentais para ser governo. É o caso do MMA, que
foi inundado por ONGs. O marido da dona Marina Silva (Fabio Vaz de Lima)
foi presidente das ONGs amazônicas. Tenho muito receio das ONGs,
tanto as internas quanto as possíveis externas que nunca entenderam
o mundo tropical e dentro do tropical um país como o Brasil com
um regional diferenciado. Alguém disse, lá no MMA, que esses
paulistas esqueçam a Amazônia e passem a pensar na despoluição
do Rio Tietê, como se o ministério não tivesse que
pensar em tudo. Você está me obrigando a dizer coisas que
não gostaria de dizer...
O sr. é partidário da tese de buscar desenvolvimento
mantendo o máximo da floresta intacta...
Pensar um desenvolvimento com o máximo de floresta em pé
significa o máximo de biodiversidade conservada e in situ. Do chão
até o dossel. Passei pelo Estreito de Breves (no Pará),
numa das caravanas da cidadania (organizadas pelo então candidato
do PT Luiz Inácio Lula da Silva), quando meditei muito sobre meu
País - foi inútil, aparentemente. Passei numa madeireira
na região e estavam desenrolando troncos gigantes para fazer placas
e vender para o exterior. Fui num estacionamento, no fundo, e comecei
a olhar os cortes dos troncos pensando em quantos anos levaram para crescer
aquelas árvores. Uma delas tinha 1 metro e 65 centímetros
de diâmetro. Aí comecei a contar os anéis de crescimento
e tive de parar. Ia dar uns 500, 600 anos. E há brasileiros que
dizem "pode cortar uma árvore se plantar uma outra".
Estamos no campo da ignorância.
Como estudioso da Amazônia e professor, que nota daria ao
governo Lula na questão ambiental?
Olha, não quero ferir a dona Marina e não quero ferir o
governo Lula, mas é claro que a nota é muito baixa.
O sr. já propôs saídas para a Amazônia
para este governo?
Fiz um zoneamento da Amazônia em 23 células espaciais, sugerindo
ao governo que fizesse uma reunião em Brasília para encontrar
um método de estudo para cada uma dessas regiões e entender
a situação delas em termos das poucas atividades urbanas,
das que têm verdadeiras capitais regionais funcionando mais para
os madeireiros do que para qualquer outra coisa, das doenças tropicais
e das locações de cada célula espacial. Enviei uma
carta ao presidente Lula logo que foi eleito. Nenhuma resposta.
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