Entrevista com José Carlos Tavares reitor da Universidade Federal do Amapá.
Por: Márcia Corrêa e Ana Girlene Oliveira, jornalistas.
Em 20 de outubro de 2007

Novo reitor desenha revolução científica para a Unifap

José Carlos Tavares Carvalho é amapaense, formado em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Federal do Pará. Especializou-se em Homeopatia. É Mestre e Doutor em Fármacos e Medicamentos pela USP e Pós-Doutor em Farmacologia Clínica pela IFP - Frei Universität Berlin - Alemanha.
Tem um currículo impressionante e depois de trabalhar muito em várias universidades brasileiras e junto à comunidade científica internacional, voltou à terra mãe para dar sua parcela de contribuição. Se depender de idéias e disposição para trabalhar, essa parcela pode significar um rumo totalmente revolucionário para uma instituição que esteve à mercê de perder o status de universidade, tal o marasmo em que se encontrava.
Eleito pela comunidade acadêmica em maio deste ano, tomou posse como reitor em julho e desde então vai à Brasília semanalmente num esforço permanente de reerguer a Unifap, estruturando-a junto ao Ministério da Educação para que a universidade amapaense possa se voltar finalmente para a produção científica e para a ampliação qualificada do número de cursos e vagas.
Na tarde de sexta-feira, 20, o reitor José Carlos recebeu as jornalistas Márcia Corrêa e Ana Girlene Oliveira para uma entrevista que durou uma hora. Um balanço do que é a Unifap hoje e projeções para um futuro bem próximo.

A entrevista:

O senhor poderia fazer um breve diagnóstico de como encontrou a Unifap ao assumir como reitor em julho passado?

José Carlos - A Unifap estava mórbida. Infelizmente é esse o diagnóstico resumido. Nós estávamos fora de todos os projetos do MEC dentro do programa de expansão das universidades brasileiras. Esse programa visa a implantação de novos cursos, construção de infra-estrutura para os cursos de graduação e pós-graduação. É difícil quando você assume algo que não oferece possibilidade de uma continuidade e aí você tem que começar do zero.

Por que a Unifap estava fora desse programa?

José Carlos - Infelizmente eu posso dizer que é a própria conduta do gestor. Nós temos um quadro de servidores técnico-administrativo muito reduzido e a introdução da universidade nesses programas exige muita dedicação por parte dos servidores e também das pessoas que estão à frente do gerenciamento da universidade. Nós estamos atrasados e temos que correr atrás desse tempo perdido.

Em suas entrevistas o senhor sempre fala em aproximar a universidade da realidade sócio-econômica do estado. Como a sua gestão pretende fazer isso?

José Carlos - Quando se discute o ensino superior, especificamente no estado do Amapá, questiona-se a abertura de tantas faculdades particulares. Isso aconteceu porque a Unifap ficou parada esse tempo todo. A partir do momento que existe uma instituição federal de ensino superior e essa instituição não dá condições para que o jovem ingresse para estudar, então abre uma demanda de mercado para o ensino privado. O papel da nossa gestão será o de inserir a universidade no contexto desse problema que é social.
A Unifap cresceu muito pouco em comparação com outras instituições da região Norte. Isso favoreceu um distanciamento entre a universidade e a sociedade. Nós queremos fazer a integração com a sociedade e dar as respostas a ela.
Nesse sentido temos hoje alguns projetos, como o Anti-homofobia, voltado para as questões do público GLS; outro que é chamado Balcão de Direitos, que promove a prestação de serviços jurídicos para as classes economicamente menos favorecidas, em Macapá e nos demais municípios; tem o Trilhas Tucujús, que envolve todos os cursos prestando serviços diversos às comunidades; o pessoal das ciências sociais está fazendo um levantamento sócio-econômico para que nós possamos entender melhor a realidade amapaense. Esses projetos foram aprovados pela secretaria de extensão do MEC, nós já recebemos a verba e eles terão início agora em novembro.

O senhor tem afirmado também que a universidade vai apostar em parceria para a qualificação do quadro funcional e para a melhoria da qualidade dos cursos oferecidos. Com que parcerias a Unifap conta hoje?

José Carlos - Ainda como pró-reitor de ensino e extensão, de dezembro passado até junho, nós já vínhamos nos dedicando a essas parcerias em termos de pesquisa e pós-graduação. Nós constituímos uma rede de pesquisa do estado do Amapá, envolvendo a Embrapa, o IEPA, a Unifap e algumas instituições de fora, como a CI - Conservação Internacional. Isso deu suporte para montarmos o projeto do mestrado em Direito Ambienta, que foi aprovado pela CPES e já está ocorrendo a seleção e também deu oportunidade de nós montarmos o projeto de mestrado e doutorado - que já iniciou também - em Biodiversidade Tropical, envolvendo todas essas instituições e mais um mestrado em Ciências da Saúde, que deverá começar em janeiro.
A parceria interinstitucional dentro do estado, mais a CI fez com que nós déssemos um salto em termos de pós-graduação e na pesquisa. Resolveu uma questão urgente; o fato da Unifap não estar atendendo aos critérios do MEC exigidos para garantir o padrão de universidade. Nós temos dialogado também com o Sebrae, com o Banco do Brasil e com o SESC no sentido de elaborar projetos conjuntos para a universidade.
O estado do Amapá é extremamente carente de cursos de mestrado e doutorado. A média de candidatos que se inscrevem nesses que estamos ofertando é de mais de 130 candidatos. A demanda é alta. Então, estamos nos preparando para trazer mestrado e doutorado também em educação, que é uma área de grande demanda no estado e outros como o ensino de ciências, junto com o pessoal da física e da matemática. Isso pra 2007.
Nós estamos fazendo uma propaganda para atrais doutores para a nossa instituição. Estamos com dois bolsistas DCR, que é um programa para atração de doutores e deveremos receber mais duas bolsas DCR, com isso aumentamos o quadro de doutores da instituição, o que nos dará condições de pensar em novos projetos.
Hoje a Unifap tem 37 doutores em seu quadro, mas é muito pouco para o que nós pretendemos. Nós estamos com a previsão de receber cerca de 50 vagas já para 2007 e nós vamos dar preferência na seleção inicial para doutores nas diversas áreas, mas voltadas principalmente para a implantação dos novos cursos.

Quanto aos novos cursos de graduação, que novidades a Unifap prepara para os próximos anos?

José Carlos - Na semana passada eu entreguei uma proposta de expansão da universidade com a criação de doze novos cursos, entre eles medicina, fisioterapia e farmácia na área de ciências da saúde, além de vários outros cursos como Administração, Economia, Serviço Social... Mas, esse projeto de expansão exige que primeiro criemos a estrutura.
Nesse sentido, ainda em novembro começa a obra de expansão da nossa biblioteca. Está prevista a montagem de uma Web hoom com cinqüenta computadores. O investimento já está para biblioteca e para a construção de alguns laboratórios básicos para os cursos da área da saúde, que também terá início em novembro.
Tem também a questão dos professores. Estamos discutindo com a Secretaria de Desenvolvimento do MEC e está previsto recebermos cerca de 170 vagas em um ano, ara suprirmos alguns cursos que estão carentes de professores e para os cursos novos também.

Esse concurso vai ser realizado em 2007?

José Carlos - Ainda em 2007, até o mês de julho. Com vagas para professores e para servidores técnico-administrativos.

O que determina a escolha dos novos cursos? Que critérios são utilizados?

José Carlos - A universidade já havia feito um estudo em relação às necessidades do estado do Amapá em termos de profissionais. O que nós temos de diagnóstico claro e real é que precisamos investir na área da saúde. Muitos dos nossos municípios não têm médicos. Se o estado do Amapá não formar seus próprios médicos, essa situação vai perdurar por muito tempo.
Muitas farmácias não contam com um farmacêutico disponível, trabalhando em todo o horário de funcionamento daquele estabelecimento porque faltam profissionais. Até mesmo a Enfermagem, que é um dos cursos mais antigos na universidade, ainda não supre a carência de enfermeiros que existe no estado.
Na área ambiental faz-se necessário também formar profissionais, como também no caso das engenharias. Há uma grande necessidade de uma engenharia elétrica voltada para a realidade do estado. Existe uma proposta da Eletronorte que envolve todo um conteúdo voltado para a nossa região, mostrando que não adianta a empresa importar engenheiros formados no estado de São Paulo, porque a realidade de formação deles é completamente diferente da nossa. Eles estão propondo um curso de engenharia elétrica rural, pela necessidade que nós temos.
Não adianta nós formarmos engenheiros agrônomos e engenheiros florestais, quando já observamos uma quantidade de profissionais desempregados nestas áreas. Não adianta montarmos um curso que vai fortalecer o próprio desemprego.

O que o senhor está fazendo para amenizar o problema da desestruturação dos cursos já existentes?

José Carlos - Mesmo com algumas carências que temos dentro da universidade, os cursos poderiam funcionar com uma qualidade mínima - e temos cursos bem organizados e bem avaliados pelo MEC, como Pedagogia, Ciências Sociais e Biologia. O que observamos em alguns cursos, que não se tratava tanto da carência estrutural, mas da desorganização existente neles.
Então, tomamos medidas imediatas em relação à organização. Estamos terminando a organização do conteúdo programático, do projeto político-pedagógico de todos esses cursos. Tínhamos cursos com pendências junto ao MEC em relação a documentos e estruturas, Modificações que foram realizadas no âmbito da Unifap e que não foram comunicadas para o MEC.

São medidas básicas...

José Carlos - Básicas e sinceramente eu não entendia porque isso estava acontecendo. Nós partimos para arrumar a casa. Não adianta investir num curso que está funcionando a dez anos sem uma mínima organização de funcionamento. Esse redimensionamento dos cursos começa pela biblioteca, pelas coordenações, pela organização documental.
Os registros da Unifap no MEC estavam todos desnivelados. Uma coisa era ofertada aqui de um jeito e no MEC era registrado algo totalmente diferente. Com isso descobrimos porque que a Unifap vinha perdendo verbas todo esse tempo. Justamente porque não eram passados dados concretos e corretos para o MEC.
Às vezes a gente culpa o MEC de não repassar as verbas, no entanto a cobrança em cima da instituição é extremamente grande. A instituição tem que estar perfeitamente adequada dentro dessas exigências. O que nós encontramos aqui no primeiro mês foi uma demanda de exigências que não foram respondidas em termos de estatísticas, de documentos e tudo o mais. Estávamos completamente perdidos.
Em meu primeiro contato com o ministro da educação depois da posse, ele falou: arrume a sua casa primeiro. Eles sabiam lá que os dados estavam totalmente errados.

Arrumar a casa, nesse sentido, mexe com muitos comportamentos que estavam cristalizados. O senhor tem encontrado alguma resistência interna?

José Carlos - Claro. Eu iria mentir se eu falasse que tenho apoio de todos. As mudanças provocam mágoas e nós temos feito mudanças, porque são necessárias em todos os âmbitos. Estamos fazendo, por exemplo, um redimensionamento dos técnicos, tentando coloca-los onde podem ser melhor aproveitados. Trouxemos os técnicos de assuntos educacionais para contribuir na pró-reitoria de graduação, porque eles estavam em setores onde não eram bem aproveitados. A graduação agora já está respirando de maneira diferente. Essas mudanças, infelizmente não agradam a todos, mas percebemos que está se criando uma conscientização de que o projeto não é da gestão do professor Tavares, e sim o projeto é institucional, é para a Unifap.
Doía muito quando eu ligava a televisão e só assistia notícias denegrindo a Unifap. Isso dói quando você tem em mente um projeto de contribuição para a formação do ensino superior no estado Estamos trabalhando na tentativa de conscientizar todos e eu observo, principalmente entre os docentes, que noventa por cento estão dispostos a investir nesse projeto de estruturação da Unifap.

Como está o processo de interiorização da Unifap?

José Carlos - Nós estamos estruturando a sede. Eu provoquei a vinda do diretor de desenvolvimento do MEC aqui e ele veio por determinação do próprio ministro Hadad para detectar in loco a nossa necessidade. Ele teve o mesmo pensamento que eu tenho, de estruturar a sede, o campus Marco Zero. Todos os investimentos imediatos são para o campus Marco Zero. Mas, vamos começar uma estruturação básica como o muro do campus lá do Amapá; vamos construir um laboratório em Oiapoque e outro em Laranjal do Jarí, mas o grande investimento será na sede.
Funcionam alguns cursos no interior, mas o que nós queremos é estruturar a sede para que possamos levar os cursos para o interior de uma maneira organizada. A partir do segundo semestre de 2007 nós vamos começar a pensar em investimentos para a interiorização. Inclusive pensar em vestibular para cursos permanentes no interior.

A Unifap tem uma vocação desde a sua origem para a formação em educação. Como o senhor pretende fortalecer essa vocação?

José Carlos - Nós conseguimos aprovar agora um projeto junto ao MEC de fortalecimento das licenciaturas, no valor de oitenta mil reais. Há ainda uma grande carência de professores licenciados na rede do estado. Mas, nós temos que acompanhar as mudanças que estão ocorrendo em alguns currículos. Está sendo discutida, por exemplo, a mudança da grade curricular dos cursos de Pedagogia. Nossa universidade tem que entrar nesse processo de atualização. Até então todos os cursos de licenciatura estavam parados, ou seja, funcionando sem uma adequação aos novos paradigmas que estão acontecendo nessas áreas profissionais. Podemos, inclusive, chegar à conclusão de que não devemos mais formar mais licenciados em determinadas áreas.

A Unifap oferece um curso de Mídia e Eucação on-line. Vocês têm trabalhado para oferecer a graduação on-line?

José Carlos - Estamos implantando o ensino à distância e estamos trabalhando para estruturar toda essa parte, com a compra de computadores e toda a estrutura necessária. É o que pensamos para atender os municípios. Outra coisa é a Universidade Aberta, mais um programa do qual a Unifap ficou de fora. É um grande programa do Governo Federal, com apoio do Banco do Brasil e de outras instituições, que dá oportunidade para que todos os municípios brasileiros tenham acesso a determinados cursos superiores, principalmente na área da educação.
Nós ficamos de fora, mas a partir de uma conversa com o próprio ministro e com o diretor geral do CESU, Celso Maculan, tivemos as portas abertas para apresentarmos nossos projetos e devemos entrar em janeiro nesse programa.

É graduação on-line?

José Carlos - Algumas aulas não são presenciais, mas através de computador, via-satélite e outras aulas são presenciais com professores da Unifap e com professores de outras instituições. O programa é ministrado pela universidade, mas todo gerenciado pelas prefeituras. É algo que envolve o compromisso dos prefeitos também na questão do ensino superior.

Como o senhor analisa o compromisso do Governo Federal com as universidades brasileiras nos últimos anos?

José Carlos - No governo do Fernando Henrique houve um grande massacre em relação às universidades e ao ensino público em si, principalmente nas instituições federais. Foi quando se deu o boom do ensino superior privado. Houve pouquíssimo investimento tanto na infra-estrutura das universidades.
Posso falar desse período porque participei de várias ações do MEC através do INEP e da CAPES, avaliando cursos pelo Brasil. Então, posso dizer que as universidades estavam paradas em termos de investimentos para a pesquisa, para a pós-graduação e para o ensino de graduação.
Hoje eu observo aqui, por exemplo, todas as salas de aula da Unifap climatizadas. Eu tive oportunidade de ir durante um verão na Universidade de Santa Maria, RS, e ninguém suportava ficar dentro de uma sala de aula. Para se ter uma idéia de como estava a universidade.
Depois do governo do Fernando Henrique, com a entrada do presidente Lula, passou a haver um maior diálogo entre as instituições federais e o Governo Federal. Muitos desses programas que foram implementados pelo governo Lula dentro do MEC saíram de uma discussão da Associação Nacional de Dirigentes das Instituições de Federais de Ensino Superior. Houve uma aceitação, por parte do governo Lula, em relação a essas propostas como o próprio projeto de expansão das universidades federais.
No governo Lula também foi criado um programa de implantação dos cursos de medicina onde ainda não existe o curso. São diversos programas que consolidam o ensino superior gratuito federal no Brasil. Mas, precisa ainda melhorar bastante.
Nós precisamos de um projeto arrojado para atração de doutores para a nossa instituição. Dentro desses programas aí, as maiores beneficiadas são as universidades que estão situadas no Sudeste, pela própria facilidade de atração de professores com bons currículos, com alta produção científica.

O senhor pensa em um programa diferenciado?

José Carlos - O que eu sinto falta é de um programa diferenciado que possa oferecer maiores benefícios para as instituições da região Amazônica. Nós já fizemos aqui uma reunião dos reitores das universidades da região Norte, as consideradas emergentes - Amapá, Roraima, Acre e Rondônia - e trouxemos alguns representantes do MEC e da CAPES para mostrarmos as necessidades que são inerentes às nossas instituições. Daí que nós ganhamos ainda este ano mais dois milhões de reais para investir na Unifap.
É bom ressaltar que não adianta ter programa e o reitor ficar sentado na sua cadeira. Ultimamente tenho ido toda semana para Brasília e a Unifap está conhecida em todos os andares do MEC.

Isso é interessante porque a sociedade coloca sempre a falta de apoio político para a universidade. Há sempre uma crítica nesse sentido. Mas, pelo que o senhor está colocando, havia um problema interno da instituição?

José Carlos - Sem sombra de dúvida. Isso é de conhecimento do próprio ministro, que chegou a ligar para diversos representantes nossos na esfera federal perguntando por que não chegavam os projetos da Unifap. A resposta era: porque não há manifestação da instituição.
Agora eles estão dando o maior apoio. Nós já conseguimos o registro de todos os campi da universidade. Os campi não eram registrados e com isso deixamos de ganhar muita verba. O ensino da interiorização não estava registrado no MEC. Mesmo nesses cursos que estão acontecendo, os alunos não estavam sendo contabilizados nas nossas estatísticas junto ao MEC.

Em relação ao acesso dos alunos através do vestibular, o senhor tem se referido ao modelo europeu de ingresso dos jovens na universidade por área de conhecimento e não diretamente num curso específico. Que mudanças estão sendo pensadas para o ingressos dos estudantes na Unifap?

José Carlos - Os processos seletivos das instituições federais estão em discussão no Brasil inteiro. Para distribuir recursos, o MEC se baseia num índice que é gerado com base no número de alunos em todos os níveis que a universidade tem. Esse índice é calculado a partir do número de pessoas que entram e que saem formadas nos diversos cursos. O abandono penaliza muito a instituição, fazendo-a perder recursos. A Unifap é a que tem o menor índice de todas as universidades. Este ano já tivemos corte de verbas. Todos os anos eles têm pena e fazem uma adequação para nós não perdermos tanto. Este ano, era para perdermos dois milhões de reais, mas, perdemos só quatrocentos e quatro mil.
No Brasil o jovem entra muito cedo nos cursos superiores. Aqui nós temos alunos com dezesseis anos. Será que um jovem de dezesseis anos já tem realmente consciência de ser biólogo, médico... Na Europa, primeiro o jovem sai para trabalhar. Depois que ele trabalha bastante, com vinte anos, vinte e um é que ele decide fazer um curso superior.

Mas, lá há empregos...

José Carlos - É verdade, há empregos.
Na Espanha, na Itália, na Inglaterra já se usava um modelo de seleção para uma grande área e não para um curso específico. Por exemplo, o aluno faz a seleção para Ciências Humanas e estuda durante dois, três anos toda a base daquela grande área e depois de três anos é que faz um teste para um curso específico. Descobre que quer ser sociólogo, por exemplo, ao presta um exame que é mais psicotécnico, pra analisar se ele tem características para ser um sociólogo.
Em maio saiu a convenção européia, de unificação do modelo para entrada no ensino superior - Convenção de Bolonha. Então, começou-se a discutir no Brasil o que vamos utilizar como modelo no futuro. No próximo ano vamos fazer uma grande discussão para determinarmos qual vai ser o nosso modelo. Se vamos adotar as cotas, o que vai ser extremamente difícil no nosso estado, que tem uma população altíssima de afro-descendentes e descendentes indígenas.

Algumas mudanças já acontecerão no próximo vestibular?

José Carlos - Ainda vai ser um processo seletivo normal, com mudança apenas na forma de aplicação. Não vai mais haver aqueles três dias de provas, mas apenas uma prova de conhecimentos gerais na primeira fase e uma de conhecimentos específicos na segunda fase, para cada curso.
Vamos acompanhar a discussão nacional que certamente vai resultar em mudanças, porque o índice de desistência no ensino superior federal brasileiro é muito alto.

Que fatores são apontados?

José Carlos - A questão sócio-econômica entra como fator. O indivíduo entra na universidade e não tem como se manter, mesmo sendo gratuita. Há um estudo de TCC realizado aqui na Unifap que mostra que nós temos essa realidade. Estamos implantando um programa de suporte para esses alunos carentes, gerando uma bolsa e queremos atingir pelo menos 30% dos alunos a princípio.
Atualmente a Unifap não tem ainda nem um regimento para adotar medidas de ingresso no processo seletivo. O aluno pode fazer quantos cursos quiser na universidade ao mesmo tempo. Um aluno que está ocupando três vagas gera incompatibilidade nos dados que são informados ao MEC.

O senador Cristovam Buarque propõe que MEC cuide exclusivamente do ensino báscio e que o ensino superior passe a ser coordenado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. O que o senhor acha dessa idéia?

José Carlos - Eu não concordo. Tudo tem que ficar na esfera do MEC. O Ministério de Ciência e Tecnologia teria sim que criar mais programas voltados para a universidade. Hoje eles estão fazendo grandes investimentos em termos de ciência dentro das empresas, mas eu acredito que deveria haver programas mais arrojados. Eu mandei um documento para o ministro Sérgio Rezende, falando da necessidade de implantação de um grande projeto de pesquisa na área de produtos naturais para a Unifap.
Não adianta irmos para a televisão e sempre afirmarmos que o Amapá tem a maior área preservada de todo o mundo, cerca de 70%, quase o tamanho na Suíça, se não houver a implantação de um grande programa que estude a preservação desses recursos naturais e a obtenção de fármacos e outros elementos dos quais poderíamos tirar proveito para o desenvolvimento do estado de uma maneira sustentável.

Para que todos esses projetos tenham resultados, é preciso ter recursos. De onde o senhor está pensando obter esses recursos?

José Carlos - No momento atual não temos nenhuma forma de atrair recursos para a universidade. A universidade não presta nenhum serviço. O único serviço que a universidade prestava eram os concursos públicos para outras instituições, o que trazia grandes problemas para a Unifap.

A Unifap vai continuar prestando esse tipo de serviço?

José Carlos - Não, a primeira coisa que fizemos foi suspender a realização de concursos. Por causa desses concursos fomos penalizados em diversas áreas, entre elas a própria credibilidade do nome Unifap. Ocorrência de fraude e tudo o mais.
Então, suspendemos e vamos estruturar primeiro o departamento de concursos para oferecer esse tipo de serviço.
A partir do momento que criarmos o curso de Ciências Farmacêuticas - e o projeto do curso é voltado para a obtenção de medicamentos da região - nós poderemos muito bem fazer uma parceria com o estado para suplementar a rede de serviços básicos de saúde.
A Universidade Federal da Paraíba possui um laboratório de tecnologia farmacêutica que funciona há mais de vinte anos e produz medicamentos para mais de vinte municípios da Paraíba. Esse dinheiro que entra dá suporte para toda a faculdade de Farmácia e para a faculdade de Medicina da UFPB.
Nós temos que encontrar também meios de obter recursos para poder oferecer uma bolsa para o estudante e investir na própria universidade.

Na verdade a universidade vive uma lógica muito cruel. As universidades recebem por produção. As que não produzem vão sendo cortadas dos programas e, consequentemente, não produzem menos. Mas, se não recebe recursos, como vai produzir? O Governo Federal teria um programa de socorro às universidades emergentes? Socorre as universidades do mesmo modo que socorre os bancos?

José Carlos - Não, não socorre não. A universidade quebrou, quebrou. Por exemplo, com esse corte de quatrocentos e quatro mil eu fui direto para o MEC chorar, porque senão não teríamos dinheiro para pagar a luz. Como é que uma universidade com 186 professores, sendo a maioria auxiliar e assistente, sem o título de doutor e que não produz cientificamente pode conseguir recursos?

Ao assumir o senhor mandou realizar alguma auditoria nas contas da Unifap?

José Carlos - Esteve aqui uma auditoria da CGU e quanto a isso o professor Brazão sempre teve muito cuidado. Está tudo certo com as contas. Mas, infelizmente, quando a gente tem excesso de cuidado deixa de fazer muita coisa. Eu não posso mudar nenhum centavo de uma rubrica. Então, autonomia não existe. Por isso, o que possibilita o crescimento de uma universidade é a oferta de serviços próprios da universidade.
Eu cito sempre como exemplo a Universidade Federal de Viçosa, que possui dentro da sua estrutura até indústria.

Como exatamente a Unifap sobrevive hoje?

José Carlos - Hoje nós estamos sobrevivendo só com a verba do MEC. Nós tivemos a aprovação de um milhão de reais para a construção do centro de pesquisas e pós-graduação, o que vai começar agora. Tivemos seiscentos mil reais para este centro de pesquisas. Quatrocentos e oitenta mil reais do CNPQ para estudarmos a contaminação por arsênico lá no Elesbão, em Santana. Projetos do BASA e da Eletronorte. Mas, são projetos específicos. Para outras missões dentro da universidade, a verba é especificamente do MEC.
Nós temos que criar outros meios de trazer recursos para dentro da instituição. Precisamos criar um projeto de auxílio ao recém-doutor. Existe autonomia em uma universidade quando ela gera recursos, como é o caso da Universidade Federal de Viçosa e da UFMG, que tem hoje um grande laboratório de produção de softwer, que assegura uma entrada de recurso altíssima para a instituição.

O que a Unifap poderia fazer nesse sentido da produção, que garantiria um retorno imediato?

José Carlos - Temos que trabalhar em alguns laboratórios chave, que sejam atrativos para o próprio estado. A produção de medicamentos é um deles. O estado gasta muito dinheiro com a compra de medicamentos. Nos cursos de Ciências Farmacêuticas e Ciências Biológicas os alunos poderiam trabalhar e se formar nesse sentido. Como a universidade ainda não tem essa estrutura, estamos tentando trazer duas indústrias farmacêuticas incubadas, que vão servir de base para a prática dos nossos alunos.


FIM