Uma revolução para salvar a Amazônia

Local: São Paulo - SP
Fonte: O Estado de S.Paulo
Link: http://www.estado.com.br/


Segundo a cientista da UFRJ, faltam investimentos para produção de riqueza com manutenção da floresta

A vaidosa senhora de 76 anos chega sorridente a uma sala cheia de estudantes na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Com sotaque carioca carregado, resigna-se com os problemas no microfone, acende um cigarro e avisa aos incautos que gosta de fazer piada. Os estudantes não entendem a ironia nem o despojamento. Mas, assim que começa sua palestra na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), eles percebem por que Bertha Becker é uma das cientistas mais respeitadas do Brasil. Ela estuda a Amazônia há 30 anos, e há pelo menos 10 defende uma revolução científica para salvar a floresta e ao mesmo tempo levar desenvolvimento e riqueza para seus 20 milhões de habitantes. “O Brasil tem esse desafio e deve saber enfrentá-lo.”

A sra. Diz o que o Brasil passa hoje pela litoralização. O que significa?
Durante o governo de Juscelino Kubitschek e o programa de integração nacional, houve ênfase na interiorização, com a criação de Brasília, as estradas e o avanço das telecomunicações na Amazônia. A Amazônia mudou muito, inclusive com telecomunicações e indústria. Da década de 90 até agora, o que domina é essa logística que não atinge a Amazônia nem o interior do Nordeste. Ela é voltada para exportação e dominada pelas concessionárias privadas, como a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e a agroindústria, o que acentuou a litoralização, abandonou a interiorização e se concentrou no eixo Centro-Sul.

A CVRD e a agroindústria têm projetos na Amazônia.
São pontuais. Carajás, da CVRD, é da mina até o litoral. A exportação mantém o padrão histórico sob o qual fomos forjados, produzindo matéria-prima para mercados globais. Éramos ilhas voltadas para o exterior. É o que acontece novamente. A preocupação com a interiorização foi sustada.

Por necessidade ou escolha?
Houve a mudança da natureza do Estado, em que há privatização intensa com concessões. Ele delega até serviços para o setor privado, que tem o interesse de exportar a produção, enquanto o Estado tinha intenção de interiorizar o povoamento. Enquanto isso, a Amazônia está isolada. Me irrito porque todo mundo do governo enche a boca para falar do valor estratégico da Amazônia, mas ações concretas são muito pequenas.

Qual é o impacto para os 20 milhões de habitantes da Amazônia?
Um movimento de preservação que foi, sem dúvida, um freio no desenvolvimento regional. Claro que era necessário, e é necessário, porque o movimento de interiorização foi violento. Mas talvez não em tão grande extensão, e não tão preservacionista. Proponho uma revolução científica e tecnológica para a Amazônia porque o Brasil já fez umas boas e importantes, como a exploração do petróleo em águas profundas, transformação da cana em álcool e a revolução do cerrado.

É possível unir essa revolução com a proposta ambientalista?
Deve unir. É uma obrigação da ciência e da tecnologia e do Estado brasileiro. O Brasil tem esse desafio e deve saber enfrentá-lo. O desafio maior é encontrar formas adequadas de utilizar o patrimônio natural que promovam a inclusão social, que é o grande problema da Amazônia e do Brasil, sem destruir a natureza. Não é uma revolução positivista. Ela tem de enredar várias disciplinas, com a participação da sociedade. É possível.

Como?
Fiz um estudo para o Ministério da Ciência e Tecnologia e propus a formação de cadeias tecnoprodutivas em biodiversidade, que viriam desde o âmago da floresta, agregando valor gradativamente, portanto atendendo à população local, até as indústrias nas áreas urbanas, em etapas. Elas passariam pelos centros de biotecnologia. Tem um, em Manaus, que está praticamente parado, e tem de ser posto para funcionar. Existem pequenas e médias empresas em Manaus, Belém e Rio Branco que utilizam a biodiversidade para fazer cosméticos: óleos, essências, sabonetes, batons. A biodiversidade é uma coisa fantástica.

Tal produção não estaria aquém do que o governo espera de retorno financeiro da Amazônia?
O governo não tem nada que esperar. A Zona Franca de Manaus é uma potência econômica, o quarto PIB metropolitano do Brasil. O Pará tem minério que alimenta as fábricas de alumínio a baixo custo. A energia da Amazônia, de Tucuruí, é mandada para o Nordeste e para o Sudeste. A Amazônia produz riqueza que é exportada. O governo tem mais é que dar estímulo para que essas coisas se desenvolvam. Organizar as cadeias, assistir os pequenos e médios empresários locais com fundos da inovação, articular pesquisa em empresa. A biodiversidade não é só para dermocosmética não, ela é também para nutricêutica, alimentos que não são remédio mas que dão bem-estar físico, como o guaraná e o açaí. Além dos fitoterápicos. Dizem: “Ah, não podemos competir com as grandes farmacêuticas mundiais”. É verdade. Mas temos um grande problema de saúde pública. Não se pode usar pra isso?

O que a gente vê na Amazônia é o incentivo à produção extensiva de grãos e ao gado.
Isso não é Amazônia, é Centro-Oeste, que se expande em frentes violentas. A questão ambientalista tem uma face legítima e uma geopolítica. Só se a floresta tiver valor econômico que poderá enfrentar as commodities. Os caras preferem tirar madeira, expandir a soja e derrubar a floresta. Mas se ela for valorizada economicamente, a situação muda de figura.

Essa proposta de cadeias produtivas é contrária ao modelo econômico baseado na agropecuária.
Longe de mim dizer que não devemos plantar soja e criar gado. É uma tradição. Na última década, o que sustentou a economia brasileira foi o setor. Mas acho que não precisa derrubar a floresta para isso, né? A soja está no Maranhão, no Piauí, na Bolívia, em todo o Centro-Oeste, na Bahia. Não chega? Há um imenso cinturão “soja-boi” que cerca a floresta, que está se expandindo e vai se expandir mais quando o IIRSA estiver implantado. Vamos destruir a floresta para plantar soja? Nós temos experiências históricas trágicas da monocultura. Já deveríamos ter aprendido com isso. O País viveu de ciclos monoprodutivos. Borracha. Café. Cana-de-açúcar. Café de novo. Algodão. E depois, quando cai o preço? É o que está acontecendo com a soja. Uma desgraça. Nossa história é marcada pelas monoculturas cíclicas para atender ao mercado externo. Tem de atender? Tem. Mas tem de pensar no mercado interno, nos milhões de brasileiros que estão em péssima condição social. Tem de pensar na logística do pequeno, não só na dos grandões.

É dar valor à floresta em pé?
Exatamente. Aqui entram as cadeias produtivas, quando se pensa uma logística própria para a Amazônia.

Essas cadeias parecem voltadas mais à população rural.
Não, não. É para integrar com a indústria. Nada de “ruralzinho” porque isso não vai dar certo na Amazônia. E não adianta fazer coisa pequena e dispersa que ela não enfrenta a soja e a carne. Em áreas de produção de alimentos, por exemplo, acho que tem de se organizar vilas industriais, uma coisa grande, com cem colonos, como cooperativas, com estradas, acesso à cidade e à circulação. E é mais fácil para o governo ajudar, porque pulverizar dinheiro para 700 assentamentos na mata não tem futuro, né? Você acha que tem?

E a exploração da madeira?
A madeira já é exportada, e muito. Vai para o Sul do Brasil e também para o exterior. Acontece que o Peru faz contrabando da madeira extraída pelo Rio Jamari: pela fronteira, manda para Iquitos e, de lá, é exportado por navio pelo Amazonas como se fosse madeira brasileira, entendeu?

É ter certeza de que aqui não existe fiscalização.
É, não existe. Por isso que acho que essa idéia de manejo florestal através de concessão de floresta pública é muito arriscada. Teoricamente seria muito bom, porque madeira é o produto mais abundante da floresta, então explorar com manejo, tudo bonitinho, seria ótimo. Mas o grande problema do Brasil é que não há fiscalização e cumprimento da lei. Então como você pode conceder as florestas sem fiscalização do manejo? É difícil.

O Inpe está desenvolvendo um sistema de monitoramento dessas áreas por satélite, que mostra a rarefação da cobertura.
Ótimo, então é isso. Porque tem um Sipam que, na verdade, até agora não conseguiu controlar nada. É uma crise institucional no Brasil, sabe? É coisa muito séria mesmo. Com uma década de política ambiental, nós não podemos dizer que a situação do povo amazônico melhorou. Isso significa que o modelo tem de ser modificado. E eu acho que tem de ser através da compatibilização. Produzir sem destruir.

Não é o que se tenta fazer hoje?
Mas cadê? Onde? Está se tentando pelo manejo das florestas públicas? Eu quero cadeias produtivas, que não destruam a floresta, que envolvam a população. Talvez até os índios. Eles estão sem trabalho. Houve a luta para a demarcação dos territórios, de suas terras. Essa luta foi vitoriosa para grande parte. E daí? E depois? Como se usam essas terras? Eles estão sem plano nenhum. Isso é muito perigoso porque acabam onde? Na coca. É um risco.

Com isso a gente entra em outra discussão sobre quanto da floresta é necessária em pé e quanto se pode derrubar, algo que não se tem uma conclusão pois o debate está muito...
Polarizado. É verdade. Isso os cientistas deveriam fazer dentro do sentido da minha revolução científico-tecnológica. Eu não sou economista. Sou geopolítica. Posso falar sobre a valorização da Amazônia, não sobre a valoração, pois isso é coisa da economia e ninguém resolveu. E eu não vou ficar parada esperando. Você não acha?

Cristina Amorim