A poesia de Isnard Lima

Texto: Edgar Rodrigues

O escritor e advogado Isnard Lima é um dos expoentes culturais da terra. Filho da grande Walkiria, que deu nome à Escola de Música, Isnard é um escorpiano nascido em Manaus, no dia 1º de novembro de 1941. Chegou a Macapá em 1949, e foi aqui que produziu a maioria de sua obra literária. Incompreendido, perseguido, mas ciente de sua vocação literária. Já publicou "Rosas Para a Madrugada", "Poemas de Amor Cigano" e está prestes a lançar o "Malabar Azul", constituído de crônicas. Tem poemas publicados nos jornais"Folha do Povo" (extinto), "Castelo" (extinto), "O Combate" (substituído pelo Jornal da Cidade), "A Província do Pará", "Folha do Norte" (extinta) e nas revistas "Latitude Zero" (extinta) e, "Observador Amazônico"

Isnard me concedeu uma entrevista, onde falou de sua vida profissional, da vocação de escritor e advogado; dos amores, da religiosidade interior e da crença num novo Estado.

P. Como tem sido sua peregrinação na vida literária?

Isnard: Você sabe, Edgar, amigo que considero muito e respeito, que a saga de um grande escritor (eu não me considero um grande escritor) tem como pressuposto a humildade; muita humildade para vencer. Eu comecei a escrever aos 12 anos de idade meu primeiro poema. Meu pai não considerou essa obra grandiosa. Dez anos depois, quando eu estava na Folha do Povo, ele me chamou e disse: "Menino, começaste a escrever bem". Mas eu, aos 18 anos, pensava que já era bom e já sabia de tudo, dominava o infinito e podia até mesmo rasgar o ventre das estrelas. Entretanto, eu não fazia nada disso.

Hoje, eu sei que é preciso aprender muito. Eu tenho muito o que aprender. Então, eu acho que, dentro da humildade eu tenho crescido. Mas não cheguei ao meu pique. Eu atualmente não tenho nem 10% do meu pique. Sei que posso subir muito mais, infinitamente mais. Em linhas gerais, a poesia começou aos 12 anos de idade, prossegue porque ela é meu amor, é minha vida... por uma poesia eu posso abandonar o ouro, o romance, a mulher, o Poder. Considero-a também a minha cruz, minha espada, minha estrela. A poesia, a literatura, é tudo isso para mim.

Como a maioria dos intelectuais num país de terceiro mundo, sua vida flutuou entre os bons e os maus momentos, principalmente na vida política. Você guarda alguns ressentimentos, algumas frustrações dos anos sessenta. Você foi muito perseguido pela ditadura militar?

As frustrações que eu tenho, se é que eu tive, são amorosas. Nesse setor eu queimei a minha lenha, lutei no momento exato que deveria lutar. Acho que ninguém me ofendeu e ninguém me ofende. Quem pode me ofender sou eu mesmo. E se eu fui perseguido pela ditadura, se fui atingido, eu me reconstruí dentro desse próprio momento. E hoje estou aqui, como um pássaro, livre para voar, livre para criticar.

Na época estudantil eu sempre disse, lá na Universidade, quando estava estudando com você em Belém: "eu não tenho nada que aprender de política com vocês. Já queimei minha lenha. Não estou interessado em política de jeito e qualidade; nem a peso de ouro".

Então, frustrações eu não tenho. Eu tenho marcas. Por exemplo, não me dou bem com os militares, a despeito de haver alguns militares que são meus amigos. Naturalmente, nós não somos de aço, pois temos nervos, sangue, sensibilidade... temos alma. Frustrações eu tive demais. E dessas ainda não consegui me libertar.

Como você vê atualmente o momento político?

É um caso que requer muita sensibilidade e muita delicadeza, porque a política nunca muda da noite para o dia. Hoje a gente defende o homem que está no Poder. Amanhã ataca aquele homem que o substituiu. Aliás, poder realmente, quem tem é Deus. Dizem os políticos que todo poder emana do povo. Para mim, todo poder emana do alto, e em seu nome deve ser exercido. Eu vejo o momento político atual como uma estrada que deve ser aos poucos limpa, desbravada, para que a coletividade amapaense evolua, para que os próprios políticos amapaenses evoluam. Não tenho preferências por partido algum. Os partidos são como escadas que conduzem o homem ao poder temporal.

Então, eu acho que esse momento político que atravessamos é natural, normal... é a luta pelo Poder. Quem vai ganhar? Decidirá o povo. Se tem de mudar, a decisão é do povo. É isso o que penso. É nisso que creio.

Por que o curso de Direito?

Quando eu estava às vésperas de fazer o Vestibular, acompanhei minha mãe em uma consulta com o falecido dr. Manuel Brasil. Na saída do consultório, ela falou ao médico: "Olha, o meu filho vai fazer o vestibular". Aí, o grande dr. Brasil, que era também boêmio, disse: "Isnard, tu vais fazer Vestibular para que curso?" Eu respondi que era para jornalismo. Aí, ele disse: "Mas jornalista tu és. Por que tu não fazes Direito? Depois tu escreves, e manda prender" (Risos...)

Também a minha opção pelo Direito surgiu em conseqüência de eu sempre ter sido contra toda injustiça. Todo poeta é contra a injustiça. Eu acho que o maior patamar a que um poeta pode chegar realmente é o patamar social. Você olha aí de repente para o passado, e vê o canto maravilhoso daquele poeta que cantou "Navios Negreiros". Por que Castro Alves é lembrado hoje? Por amor à Eugênia Câmara? Porque amou belas mulheres? Porque fazia poeminhas de amor? Não. Castro Alves hoje é lembrado pela população porque defendeu o escravo. Porque foi contra a injustiça. Porque foi contra a chibata. Porque foi, acima de tudo, contra um Poder que já devia estar superado há muito tempo: que é a exploração do homem pelo homem.

E as mulheres?

O coração continua jovem, cada vez mais jovem; o coração, a cabeça, depois de várias "porradas" que levei na vida. Deus, um dia desses aí tirou aquilo que chamam de Razão. E eu me lembrei, não querendo me comparar a ele, que um poderoso da antiguidade chamado Nabucodonosor também andou "pisando a verde erva do campo". Eu acho, Edgar, que antes eu estava me elogiando demais, estava acreditando demais, gigante a tal ponto de dizer: "Ó garotinho; tu que estás aí em baixo, vai pastar um pouco a erva do campo". E eu entrei nessa, dizem os médicos, por depressão; dizem us umbandistas que foi obsessão; digo eu que foi simplesmente a implosão ou a abertura daquilo que os orientalistas chamam de "terceira visão" ou "kundalini". Eu hoje estou me considerando, com a graça de Deus, dez vezes melhor do que quando eu entrei "em parafuso".

Você se considera um homem religioso?

Eu me considero um homem que acredita em Deus. Todo homem que não acredita em Deus é um idiota; é um imbecil. Eu acredito em Deus porque vejo Deus em toda obra grandiosa da natureza. Vejo Deus numa rosa à beira do caminho, num lírio do vale, numa estrela da manhã, numa tempestade em alto-mar, no choro de uma criança. Vejo Deus, inclusive, na concepção maravilhosa da maternidade. Vejo Deus na tristeza, na alegria,na crise e no sucesso.

E o Malabar Azul?

O "Malabar Azul" aconteceu ao longo dos tempos. É um trabalho de mais de 20 anos. É a vivência de um homem ao longo desses 20 anos; um homem contando seus momentos subjetivos e objetivos; o homem descendo os precipícios, e subindo os grandes aclives; amando, desamando, guerreando consigo mesmo, porque eu acho que a maior guerra do homem não é com o mundo, e sim consigo mesmo. Dizia Lao-Tsé o seguinte: "Tudo aquilo que valorizamos ou tememos está dentro de nós mesmos". Então a luta não é contra o mundo, é contra o homem. Eis porque a política que está aí não está melhor do que nunca: porque o homem não mudou o seu modo de pensar. Ele continua querendo explorar o seu próprio semelhante. Ele tem de mudar a sua visão de mundo, e ter uma concepção estelar da vida. Essa é que é a realidade.

Você teve problemas com a censura?

Foram poucas as obras censuradas. Lembro-me de um pequeno episódio que aconteceu em 1973. Uma determinada criatura que hoje está no poder, emitiu uma opinião dizendo que uma obra minha não era crônica, era prosa. E simplesmente por causa disso o livro não foi aprovado. Deixei passar o tempo, a pessoa saiu e eu entrei de novo com o livro. O "Conselho Territorial de Cultura" em 1987 aprovou tranqüilamente o livro. Acho que todo o crítico é frustrado naquilo que ele critica.

E "Poemas do Amor Cigano?"

Você se lembra do que aconteceu em setembro de 1973? Você vivenciou um pouco junto comigo este episódio. No dia do lançamento, já estava tudo preparado para a tarde de autógrafos do livro na "Livraria do Estudante", onde você trabalhava. O Juracy Serrão, um dos sócios da livraria, me cedeu o espaço para lançamento. Mas a Polícia Federal chegou naquela época que a censura prévia das obras ainda acontecia e me falou: "Você tem de fazer um requerimento para o Ilustríssimo e Execelentíssimo ‘não sei o quê’ da PF". Aqui pra nós, Edgar, "excelentíssimo" é só aquele que está em cima. Falei na hora que não faria "porra nenhuma" de requerimento. Diante disso, eles apreenderam o livro, que acabou não saindo.

O que você diria para os que estão iniciando a vida literária?

Ser humilde acima de tudo. Estudar, pôr em prática a sua arte. O homem está aprendendo em todos os momentos de sua vida; tem de ser humilde para escrever, mas tem de estudar, esquentar a pestana, adquirir cultura. Para isso, é preciso ler... e acreditar que a Verdade sai do fundo do poço, vem à tona, e passa a residir na nossa vida.

(Entrevista publicada no Jornal do Dia, de 28 de setembro de 1992)