06-02-08

A praça

*Ademir Pedrosa

Procurava por um endereço na Av. Henrique Galúcio e foi dar na Praça Floriano Peixoto, sem encontrá-lo. A praça interrompia o percurso daquela avenida, e ele ficou em dúvida se na rua seguinte, que prosseguia a essa, tinha o mesmo nome. Ao atravessar a praça por uma calçada em declínio, sentou-se em um de seus bancos. Havia a muito que não se sentava em um banco de praça. Ficou ali a esmo, como um pombo-correio que perdeu o rumo. E já que estava ali, não custou nada para o corpo refestelar-se em seu assento e ter direito a um breve descanso. Era um final de tarde, sentia uma preguiça obstinada e deixou o pensamento vagar à toa, sem bússola e sem assunto pertinente. Cruzou as pernas, cruzou também os braços por trás da nuca, e fechou os olhos. Uma janela se abriu para infinito, e lhe trouxe à lembrança um estádio de sua infância que passou ali, num matagal de aninga, naquele igapó que abrigava secretamente mapinguaris e boitatás, e que agora tinha outro nome, nome de marechal. Ele recuou na memória, e pôde perceber que o tempo havia tirado a beleza autóctone daquele lugar. Não tinha mais a pujança de um matagal, de um igapó com aningas e mururés, onde nós, meninos, navegávamos em jangadas de troncos de buriti.

Agora aquele lugar havia dado lugar a essa praça com uma lagoa de forma sinuosa e que parece artificial. O cenário se compõe de árvores acanhadas, um gramado baldio com plantas e flores escassas, um pequeno parque com brinquedos destruídos; alguns canteiros abrigam touceiras de capim que se misturam com frágeis brotos de palmeiras de açaí, e açaizeiros que se balançam ao sabor do vento, com a peculiar elegância das magras palmeiras.

Para falar a verdade a praça não é toda feia. Mas está longe de ser o que era antes; talvez esteja mesmo longe, num longínquo continente africano, e que não pode mais se estabelecer por aqui. A paisagem urbana não permite mais o matagal nativo, a cidade se civilizou, apagando os resquícios bucólicos que preconizava a sua infância campesina. Mas de qualquer modo estava ali um lugar de que já o conhecia mesmo desbotado pelo tempo, e que agora se chama Praça Floriano Peixoto. A praça não merecia aquele nome. Um militar que comandou tropas de soldados brasileiros, e que covardemente massacrou, e quase dizima, com a ajuda do Uruguai e da Argentina, a população masculina do Paraguai. Esse militar não é digno de ser nome da Praça. Lembrou-se da lição escolar que lhe fez admirá-lo como um herói, mas que depois descobriu o engodo. Lamentou. A capital catarinense que o diga, já se pensou até em plebiscito para mudar-lhe o nome.

Abriu os olhos e pôde deslumbrar uma brecha luminosa no fim do túnel, no túnel do seu tempo: um menino de cócoras na beira da lagoa pescava com uma pequena vara, uma vergôntea de bambu. Ele reconheceu, era mesmo um legítimo caniço; uma vara cediça de pesca que abonava o cenário reconstituído. Aquela cena salvou a lagoa de sua infância. Deu-lhe também uma alegria infantil, dessas que se rir acanhado, sem saber o porquê de estarmos rindo. Levantou-se e seguiu triunfante sua caminhada em busca do endereço que procurava, na Av. Henrique Galúcio que atravessava imaginariamente aquela praça como a linha do Equador, e que dividia o seu sonho em dois hemisférios: o de outrora e o contemporâneo.

 

* Escritor e professor de língua portuguesa e literatura