23-1-09

Reflexões para o Fórum Social Mundial

Ademir Pedrosa


Eu sei quais os afluentes do Amazonas, à margem direita: Javari, Jutaí, Juruá, Tefé, Madeira, Tapajós e Xingu; à esquerda: Içá, Japurá, Negro, Trombetas, Paru e Jari. Você deve está se perguntando pra que diabo essas abobrinhas servem? Ora, servem para eu decretar que a Amazônia é nossa, e ninguém tasca! Tenho visto ensinamentos de como evitar do rio Amazonas secar. São lições internacionais de países cujos rios foram poluídos, secaram e foram extintos. Está na internet como deve ser o procedimento para evitar o “efeito-estufa”. Será que eles sabem quais os afluentes do Amazonas?

Mas também não é pelo fato de morarmos na aldeia, de termo o conhecimento empírico, que só nos sabemos de nossa realidade. Também não é assim. O geógrafo Aziz Ab´Sáber, um cientista que tem um vasto conhecimento sobre Amazônia, inclusive tem um tratado sobre o Delta do Amazonas, não mora aqui. Talvez nunca tenha estado aqui. Compare com este episódio. Depois da conquista da revolução cubana, convidaram o poeta chileno Pablo Neruda (Prêmio Nobel, 1971) a conhecer Havana, e o conduziram a subir a Sierra Maestra, de onde desceram as tropas de Fidel e Che Guevara para a conquista da revolução. Quando Neruda chegou ao pé da serra, ele perguntou: “tem elevador?” Não. “Então eu não vou.” Um dos mais belos poemas escrito por Neruda fala sobre Havana vista do alto, e o poeta nunca subiu a serra para escrever sua obra-prima.

Os ensinamentos que estão na internet é resultado do desespero que tem essa gente de ter visto seus recursos hídricos se esgotarem diante da passividade desse povo. O consumo de água potável nesses países, hoje, é rigorosamente controlado, por ter um alto custo de distribuição, e a matéria-prima valiosíssima.

Só a título de ilustração, olha o que aconteceu com o grupo de músicos paraenses que foram estudar na França. Foi o Mini-Paulo, musicista erudito, que me contou essa. O grupo se constituía de oito músicos. Na primeira semana, no prédio onde moravam, receberam uma equipe de inspeção da companhia de água para a verificação de um suposto vazamento. A suspeita seria dos apartamentos ocupados pelos brasileiros. Verificaram tudo, e não encontraram nada. Aí o Mini-Paulo concluiu que o salto exacerbado do consumo de água era devido ao grupo de brasileiros ter o costume de tomar três banhos diários - de manhã, de tarde e de noite -, e como os franceses só tomam um único banho por semana, daí todo esse escândalo de eles terem ficados horrorizados com o hábito pouco civilizado dos brasileiros.

Quando estive na Alemanha, pude constatar o que vai acima. Hospedei-me num hotel de categoria média. Estávamos na estação de outono, mas fazia um frio siberiano de alascar. Não posso dormir com aquecedor, pois o ar quente me queima a saliva, e tenho surtos de apnéia. Os cobertores eram confortáveis e me protegiam muito bem do frio. De manhã eu mergulhava na banheira de água quente e ficava ali horas a fio, de bubuia. No quarto dia, eu reparei que na parede lateral do apartamento, no rodapé, havia uma palhetinha vermelha que rodava que nem um ventilador, parecido com um hidrômetro. Fechei as torneiras da banheira, e o ventilador parou. Égua! Era um hidrômetro. Você paga pela água da torneira do mesmo modo que paga pela água mineral do frigobar - te manca! Paguei a conta e voltei urgentemente ao Brasil, morto de sede e sem o banho da manhã.

Na internet há lições de como devemos fazer para salvar o rio Amazonas. Ensinam-nos como devemos evitar os desperdícios: quando você for tomar banho, ao se ensaboar feche o chuveiro; ao escovar os dentes, não deixe a torneira aberta, enquanto não estiver se servindo da água da pia. Cada gota desperdiçada é uma ameaça à sede da humanidade. E a panacéia não pára por aí, pois chegam ao requinte de recomendar a plantar cactos e bromélias em lugar de banana e açaí, por serem estes vegetais que necessitam de muita água. Você pode achar que eu estou brincando, mas foram os gringos que começaram.

E fazem cálculos mirabolantes na tentativa de provar que o mundo está literalmente pela última gota, e que temos pela frente um futuro desidratado. E o culpado é você!, que é um sem-noção, e não sabe do que o efeito-estufa é capaz. O desperdício daquela torneira que pinga, somados aos outros pequenos vazamentos, vai resultar num desperdício astronômico, capaz de botar em risco o Planeta.

Mas eu também sei sofismar, quer ver? Que tal uma campanha para economizar oxigênio? Vamos parar de respirar por 1 minuto. Pelas minhas contas, se a população de S. Paulo, que é de 40 milhões, deixar de respirar por tenuíssimos 60 segundinhos, sabendo-se que o ar possui 1/5 de oxigênio puro, infere-se que em apenas 1 minuto vai acrescentar à atmosfera a bagatela de 804 mil metros cúbicos de oxigênio puro. Aliás, é moleza essa tarefa para o paulista, basta ir para frente do Tietê e tapar o nariz. Se isso não for suficiente, que tal apelar para China, que botou mais de 1 bilhão de narizes no mundo? Se cada chinês parar de respirar por 1 minuto, vai sobrar oxigênio pra neguinho nenhum botar defeito. Se duvidar, é capaz de curar até mesmo minha apnéia que tanto me atormenta...

Sejamos racionais, e sem a pieguice dos ecologistas de plantão. O rio Amazonas lança no oceano Atlântico 176 mil metros cúbicos de água por segundo. Toda essa água doce se acaba naturalmente no mar. Podem fazer a conta que quiser, mas quero ver me convencer matemática e estatisticamente que esse “desperdício” venha superar todo o volume de água que escapa pelo ladrão ao mar. E não me venham com o tal do chavão que é “politicamente incorreto” fazer apologia ao desperdício, porque é obtuso demais esse raciocínio. O âmago da questão está no genocídio da Amazônia, por conseguinte, na poluição dos rios e de toda a sua extensão geográfica. É aí onde mora o xis da questão, e não na minha ou na sua conduta de consumir mais água do que os demais caras-pálidas terrestres. Temos o maior patrimônio hídrico do mundo. As lições para tal suposto desvio de conduta não serve para nós, que vivemos num lugar privilegiado e abençoado por Deus. Talvez sirva para os paulistas que transformaram o rio Tietê num atoleiro de bugigangas, cocô e xixi.

O que tem que se coibir são as queimadas colossais que devastam a mata amazônica, e não as coivaras ou o fogão de lenha do caboclo ribeirinho. Coibir o uso de moto-serra, e não o uso do machado, do terçado, ou da enxada, que são instrumentos legítimos do trabalhador dessa região. Temos que nos preocupar com a ocupação das ressacas, e não com alguém que lava estupidamente uma calçada. A Lagoa dos Índios, por exemplo, está sendo ocupada palmo a palmo, e as autoridades fazem vista grossa, como se nada estivesse acontecendo. Temos que nos preocupar é com a devastação, tendo em vista a venda indiscriminada da madeira para o exterior; e com a queimada da floresta, para em seu lugar se plantar capim e/ou soja que, hoje, é um negócio da China, mas que causa um impacto devastador para o meio ambiente. Temos que nos preocupar com a extinção das espécies por falta de hábitat, e não proibir o índio de seu sagrado direito de comer caça. Se insistirem em misturar alho com bugalho, a Amazônia está fadada a virar fóssil. Mas há esperança. Há muitas coisas com remotíssima possibilidade de acontecer, sempre fui um cético com esses prognósticos. Quebrei felizmente a cara, o Barack Obama taí...


Ademir Pedrosa, escritor e professor de língua portuguesa e literatura.
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