20-05-08

Água de moleque

Carlos Augusto Ramos
Gurupá, 12 de Agosto de 2007.

 

A molecada gritava:

- Escasseando água, né, velha??!!

E assim, os jogadores mirins, suados e catinguentos, da escolinha da vida de futebol de Monte Dourado (da qual eu fazia a sempre tarefa de ser o ponta-direita pequenino de todo time de moleques que se preze) protestavam contra a senhora dondoca que negava uma garrafa com água e um copo ara matar a sede dos incansáveis boleiros.

O código de compostura de cada cidadão nas cidades de interior como a que eu vivia era nunca deixar de prestar esse serviço de hidratação aos meninos, pois havia um sentimento unânime que não servir um copo com água era um desatino ao ser humano, mesmo que se tratasse de uns pestes como os que formavam o meu time. Afinal, Deus nos tinha presenteado com vários rios e lagos para suprir-nos e que tal produto deveria ser gratuito a todos. Este era um pensamento consensual da década de 1980 e início dos anos 1990.

Na cidade grande, a primeira vez que comprei uma garrinha de água mineral, estranhei dada a minha criação. Senti uma contradição, uma espécie de remorso sem claramente enxergar o motivo da culpa. Era a conclusão que se quebrava uma regra de ouro e a água nunca mais seria oferecida aos moleques caraquentos da bola, porque agora custava numerário, mesmo pouco, mas custava dinheiro. Que os mirins bebessem água de torneira!! Que pegassem suas amebas em suas próprias casas. O pior que isso está se alastrando também para o interior. Rasga-se deste modo um artigo de bom convívio entre os vizinhos

Hoje, penso como temos caminhado velozmente para o conceito pay-per-view (pague-para-assistir) nas demais áreas da vida. Pague-pra-beber, porque a da torneira é um veneno (e é paga!). Pague-pra-brincar, pois a criançada não tem mais a segurança e lugares para serem descobridores de mundos e assim buscam-se shoppings e jogos eletrônicos. Pague-pra-dançar, pois não se toca mais as músicas românticas, estilo democrático em que o pé-de-chumbo da festa aproveitava para chegar perto da menina bonita no canto do salão e tentar conquistá-la. Agora, com os ritmos frenéticos preponderante nas festas é necessário ser um dançarino básico a qualquer custo: ou você paga uma escola de dança ou paga os vários micos até a espinha se convencer de que é preciso chacoalhar.

Uma frase dessas de auto-ajuda diz que o homem é adaptável a tudo. Acho correto e virtuoso a não ser que essa adaptação esconda o conformismo de se viver com sufoco todos os dias. Não pode ser adaptação ver rios podres a ponto de recorrermos a compra de água para tudo. Não pode ser normal meninas e meninos em condomínios e prédios fechados, isolados em pátrias isoladas sem exercitar a interação com seus pares de mesma idade. Não é um adaptar-se. É não indignar-se, não ter liberdade, não possuir qualidade de vida. E se mergulhava antes nos rios, de cabeça, fundos e limpos. E se corria na rua (e não eram ladrões!). E não faz tanto tempo (tenho 31 anos) que tudo isso ocorria.

O que é nostálgico para mim é lembrar a galerinha dizendo: “vai lá, Carlinhos, tu que é o menor, pede água para a dona lá”. E lá ia o molequinho com cara de puritano, olhando para a minha unha e pedindo:

- minha senhora, me vê um copo d´água?

- claro, meu filho (eu sempre era filho dessas senhoras, nunca entendi a causa).

A molecada a partir de então, pulava do mato ou de trás de um poste e formava a fila. A dona não reclamava, achava engraçado.

Éramos crianças.

De graça sorríamos todos.

De graça era a vida.