14-2-09

O sujeito chama-se Bandido


É o apelido, naturalmente. O nome verdadeiro, da pia batismal, tem a magnitude erudita de filósofo grego: Anaxágoras. Odeia o seu nome próprio, prefere o apelido a ser chamado por um nome que lhe soa feminino.

- Parece nome de madame - protesta, ressabiado.

A alcunha não tem conotação nenhuma com o que o substantivo sugere. Bandido é um sujeito austero e honesto. Ganhou o apelido de Bandido ainda na infância. Herdou do pai boliviano um sutil sotaque hispano-americano, e quando brincava com os amigos do Bairro do Igarapé das Mulheres, de mocinho-e-bandido, ele pronunciava o primeiro "d", de bandido, com a língua entre os dentes. Pronúncia inusitada para os garotos do bairro, e como eles achassem engraçada a pilhéria, passaram a arremedar o "bandido", com aquela pronúncia estrangeira. Faziam de gozação e pirraça, evidentemente. E de tanto repetirem, o apelido pegou. A partir daí, Anaxágoras passou a ser conhecido pelo nome de Bandido. Achava que lhe assentava bem e assumiu resignadamente o apelido.

Com o passar do tempo, os rapazes do bairro descobriram que Bandido detestava que lhe chamassem pelo verdadeiro nome, daí então passaram a sacaneá-lo, xingando-o de Anaxágoras, como o mais ignominioso dos apelidos:

- Anaxágoras de Clazômenes - gritavam os colegas estudantes.

De Clazômenes era demais. E Bandido perdia a compostura:

- É a mãe, seus filhos-daquela-outra!

Além da sutileza feminina que parece insinuar o nome, outra coisa que Bandido não suportava era a palavra pluralizada. Dava-lhe a impressão de que ele não era só uma pessoa - era duas. Ou três como na santíssima trindade. Anaxágoras de Clazômenes - com perdão da palavra! - é um sujeito bom, mas está longe de ser santo. Refutou definitivamente o nome e a possibilidade eclesiástica.

Hoje, Bandido tem a postura de um gentleman. Exibe um farto bigode grisalho e tem eternamente sobre a cabeça uma boina de origem basca, uma espécie de boné sem pala, que lhe esconde a calvície e que lhe dá um ar taciturno e circunspeto. Possui uma memória privilegiada, e tem sempre na ponta da língua uma resposta pra tudo.

Contam que na saída de uma novena da capela do Bairro do Igarapé, onde morava, um curioso resolveu experimentar se a esperteza de Bandido conferia mesmo com o boato que tanto alardeavam, e lhe fez então uma pergunta à queima-roupa:

- Bandido, qual a melhor parte da galinha?

Ao que Bandido respondeu sem pestanejar:

- O ovo.

E ficou nisso. Cinco anos depois, na mesma capela do bairro, o mesmo sujeito perguntou sussurrando, dentro do silêncio da igreja:

- Bandido, com quê?

Bandido olhou por cima dos óculos e reconheceu o sujeito.

- Com sal - disse-lhe laconicamente e baixou os olhos, abstraído, à leitura da Bíblia.

Outro episódio que retrata a singularidade do caráter do Bandido se deu na sala de espera do gabinete de um deputado. Bandido aguardava há horas para ser atendido, e de repente adentra a sala um grupo de pessoas muito falante. Um deles antes de dirigir-se à secretária, dá um sonoro bom-dia a todos ali presente, e diz:

- Gostaríamos de falar com o nosso deputado.

- Quem eu devo anunciar, por favor? - perguntou a secretária, sem dirigir-lhe o olhar.

- Diga-lhe que são os artistas. Hoje temos um evento cultural e gostaríamos de convidá-lo pessoalmente - disse o artista.

A secretária empunha o telefone, digita freneticamente uns números, murmura algumas palavras com a mão em concha no fone, e se volta aos artistas e comunica que o nosso deputado está numa reunião im-por-tan-tís-si-ma! e que só poderá atendê-los após o término da mesma. Num átimo, Bandido se levanta e diz à secretária:

- Por obséquio, Senhorita, diga ao deputado que eu fui-me embora e que deixei meus cumprimentos. Obrigado.

- Mas, Senhor, o deputado vai atendê-lo daqui a pouquinho - disse a secretária com um sorriso indisfarçável de secretária de deputado.

- Senhorita, eu já estou aqui há mais de duas horas. Se aos artistas o nosso deputado só vai poder atender depois dessa interminável reunião, imagina a mim que sou Bandido... Adeus.

 

Ademir Pedrosa
De rima, de prosa.