01-10-08

LEMBRANÇAS DE “O MAGAZINE”, DE L. MARTINS!

João Silva

Exatamente como os jingles da Rádio Difusora de Macapá alardeavam a novidade que iria mudar a cara da rua Cândido Mendes: “O Magazine”, do empresário Luis Martins Serrano, um dos filhos de Francisco (Zilda) Serrano, que morreu no Hospital de Emergência, na quinta-feira, 4 de outubro, de infarto, aos 74 anos de idade.

Tinha charme, sim; era uma loja bem arrumada, uma novidade que veio pra chacoalhar a fachada nada criativa do comércio local; posso até dizer que introduziu a primeira vitrine no comércio de Macapá; um magazine mais ou menos no estilo daqueles que o empresário Luis Serrano conhecia de sucessivas viagens ao Rio de janeiro, pra curtir o carnaval, um dos prazeres da sua vida.

Garoto pobre, gostava de ficar um tempão, olhos arregalados, admirando aquela novidade que eram as vitrines de “O Magazine”, principalmente na época do Natal, quando Papai Noel Lulu, o Papai Noel Wanderley apareciam pra mexer com a fantasia da garotada, tocando sino de mão, alegrando a cidade, chamando atenção para os expositores abarrotados de novidades que despertavam o interesse dos habitantes de Macapá.

Meninas e meninos viviam desejando carrinho de corda, bola de futebol, bicicleta, boneca de luxo, coisa parecida; os casais sonhavam com utilidades para o lar - enceradeira, fogão, toca-disco, estante, geladeira, moveis, radio, já que televisão só chegaria ao Amapá em 1975; certo é que naquela cidade bem comportada do início da década de 70 todos os desejos de consumo batiam à porta de O Magazine, de L. Martins.

A família de Francisco Serrano chegou à Macapá antes da criação do Território do Amapá; o casal veio de Belém em 37, trazendo dois ou três filhos pequenos e aqui se estabeleceu na chamada Rua da Praia, onde começou a estória da “Farmácia Serrano” que tantos serviços prestou ao povo macapaense, a partir de 1939, e depois de 1939, no prédio da rua Cândido Mendes, demolido por conta das obras de reurbanização do centro de Macapá.

Prédio da Cândido Mendes, bem ao lado da legendária “Casa Erotilde”, era vistoso, construído todo em alvenaria; tinha prateleiras em carvalho, piso feito de tábuas de acapú e pau amarelo; “sobre o balcão envidraçado, podia se contemplar bela máquina registradora, uma das novidades que seu proprietário trouxe de Belém para modernizar a Farmácia e Drogaria Serrano”, salienta o ex-balconista J.Ney, emocionado.

Deu tão certo que a farmácia dos Serranos virou referência, numa época em que a população era pobre, doente e médicos se contava a dedo; era a maior farmácia de cidade e a generosidade do Serrano fazia a diferença, até porque era farmacêutico mesmo, sabia manipular remédios, ouvir queixas dos fregueses, sugerir o remédio certo para as enfermidades que mais incomodavam os macapaenses, como verminose, reumatismo, anemia, dor de cabeça, diarréia, gonorréia e outros males.

Francisco Serrano ainda ajudou a fundar o Amapá Clube e as batalhas de confeti dos bons tempos do carnaval de rua de Macapá, inclusive uma delas diante da Farmácia Serrano, já na rua Cândido Mendes; ainda deu ao Amapá um guaraná produzido em garrafa, o Super Guaraná, que chegou a rivalizar com o Flip Guaraná, do empresário Moises Zagury; morreu em 1988, mas a “Farmácia Serrano” não cerrou suas portas, por iniciativa da família.

Apesar daquele jeitão meio fechado, Luis Serrano era gente fina, um empresário bem relacionado que fez também uma incursão pela noite e abriu, em 1973, se não estou enganado, a boate “O Biombo”, uma casa noturna que fez muito sucesso na cidade, lembra o irmão e jornalista Marlucio Serrano; casa, aliás, bem parecida com as boates de hoje em dia, fazendo justiça ao bom gosto de quem conhecia bem as noites de Copacabana.

É um pouco da saga dos Serranos, a propósito da morte repentina de um dos membros mais ilustres da família, o empresário Luis Martins Serrano, que deixa a esposa Maria Tereza, os filhos Bivar, Robson, Luiziane, Romero e alguns netos; deixa também amigos saudosos e uma das marcas do labor da família no Amapá: a “Farmácia Serrano”, na Cândido Mendes, esquina da alameda que perpetua o nome de Francisco Serrano.