01-11-08

Nossas urnas muderninhas

* Ademir Pedrosa


Cursei datilografia pela extinta LBA. Fiz minhas lições numa Remington profissional. Até hoje eu datilografo habilidosamente com todos os dedos, mas confesso se eu continuasse batendo às teclas daquele jeito as minhas falanges, falanginhas e falangetas estariam mais curtas, devido às porradas frenéticas que eu dava na coitada da máquina. Quando surgiu a máquina de escrever eletrônica, e com fita corretiva, considerei o advento do século, já que o arquiteto e governador paranaense Jaime Lerner referendou a caneta Bic como a invenção mais próspera da humanidade. Ter, entretanto, uma dessas máquinas eletrônicas equivalia possuir um legítimo relógio suíço ou uma caneta Park made in E.U.A, pela austeridade que esses produtos impunham respeito. Década depois surgiu o computador, em seguida nasceram a internet e o celular, que juntos têm mil e uma utilidades, posto que o Bombril seja mais antigo do que a vovozinha. Devo admitir que minha moderna máquina eletrônica tornou-se, da noite pro dia, um dinossauro da era mesozóica, fossilizou-se; e a Bic do Lerner permanece olimpicamente no pódio. Pelo que eu sei depois que o homem inventou a escrita - que eu considero a mais importante da humanidade - ainda não surgiu nada que supere a eficiência e a praticidade de uma caneta esferográfica, é ou não é? O Jaime Lerner tem razão.

O computador é o cérebro que rege todos os outros adventos eletrônicos. O computador é a nave-mãe, plugado no mundo. O computador é um faz-tudo, mas não é indefectível, nem é de inteira confiabilidade. Os Bancos, Operadoras de Celular, estão aí para não me deixar mentir. Diga-me, meu caro leitor, você nunca foi vítima de uma falha dos sistemas informáticos dos Bancos? Aquele cartão de crédito nunca causou dor de cabeça, depois que você descobriu que seu saldo miserável foi pro beleléu, evaporou-se? E o culpado é o sistema, embora seus dirigentes afirmem que ele seja de absoluta confiança. Diga-me outra coisa: a sua operadora de celular algum dia já acrescentou aos seus créditos bônus pelos transtornos que causaram a você, em razão do sistema ter entrado em colapso pelo congestionamento de linhas? Claro que o sistema computadorizado falha. Quandoque bonus dormitat Homerus (Às vezes até o bom Homero cochila), o cérebro eletrônico também. Para endossar essas peripécias eletrônicas, escute essa velha anedota. Por uma falha do sistema da folha de pagamento, um funcionário recebeu em seu salário 30% a mais do que deveria receber. Mês seguinte, descoberto o engano, o sistema retirou-lhe os 30% que havia acrescido. Quando o funcionário viu seu salário incompleto, ressabiado, foi imediatamente reclamar ao chefe. E este explicou: mês passado você recebeu a mais, e não reclamou; e agora vem reclamar? Ao que o funcionário respondeu: um erro eu perdôo, mas dois eu não aceito de jeito nenhum. Cai o pano.

Consolidado no mundo a era da informática, o Brasil nesse diapasão foi mais longe, avançou e chegou às urnas eletrônicas. E presunçosamente oferecemos logo o nosso norrau aos Estados Unidos, para dar uma esnobadinha neles. E eles estranhamente recusaram nossas engenhocas. Inveja? Não. Não acharam as geringonças ineficientes, rechaçaram por considerá-las facilmente manipuláveis, sujeito a fraude. Só por isso. E eles têm motivo para isso. Hackers conseguem imiscuir-se em computadores domésticos, e descobrem sua senha, sua conta bancária, seus documentos, sua/seu amante, até seu DNA. Um hacker, um garoto americano de dezesseis anos, conseguiu abrir o sistema ultraprotegido do Pentágono, alvará o sistema de um TRE. Por favor, leitor, não vá me crucificar. Eu não disse que nossa eleição foi fraudada, não. Que eu digo é que esse sistema informatizado de votação é sujeito à violação, à fraude. Vá que exista um programinha que troque, às esconsas, os votos de um para outro candidato, e depois de concluída a apuração, apague o vestígio da operação fraudulenta. O Brizola, nas eleições de 82, no Rio de Janeiro, não teria como impedir que a Proconsult, empresa contratada para fazer a apuração dos votos, e que era dirigida por militares inescrupulosos do SNI, fraudasse a eleição em favor de seu adversário Moreira Franco, candidato do Governo. Se não fosse a velha e a boa escrutinação manual, a qual é possível recontar os votos, no caso de dúvida, a fraude da Proconsult seria bem-sucedida. Desbaratada a quadrilha dos votos, Brizola venceu a eleição. Se fosse hoje, estaria derrotado porque o sistema das urnas eletrônicas não permite fiscalização, é impossível recontar os votos, e os sufrágios do Brizola sorrateiramente computados ao Moreira Franco, inverteria o resultado da eleição em favor do candidato do ame-o ou deixe-o. Vamos simular o seguinte: você vai à banca do bicho e pede para o bicheiro jogar na borboleta, ele se equivoca e joga no jacaré; sua chance de realizar seu sonho é remota, pois o seu palpite era a borboleta amarela, com a qual você havia sonhado. É por isso que a Deputada Janete Capiberibe quer mudança na Lei Eleitoral: “Quero ter certeza, como todos os eleitores, de que o candidato que recebeu o meu voto seja mesmo o que escolhi.”

Por que será que países como os Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha preferem a antiga escrutinação à nossa moderníssima urna eletrônica? Eu sei. É porque eles são menos ingênuos que nós, e são dotados de algo que em política é imprescindível: o desconfiômetro. Em política a ética ensina que escrúpulo e moralidade anda de mãos dadas. Talvez por isso que em período de eleição eu fico assim meio paranóico. Fico franzido de medo de uma abelha entrar no meu ouvido. O Leonel de Moura Brizola quando fora prefeito e governador do Rio Grande do Sul, ele construiu 6 mil escolas e erradicou o analfabetismo naquele Estado, e pretendia fazer o mesmo pelo Brasil afora com os seus Cieps, se fosse presidente. Ele deve está se contorcendo no túmulo, pois as promessas que o candidato de seu partido, PDT, fez em campanha vão deixar o bom e o velho gaudilho gaúcho no chinelo. Se o candidato vitorioso a prefeito de Macapá cumprir a metade das promessas de campanha em educação, seremos a mais nova e única cidade do Brasil sem analfabetos. A propósito, leitor-eleitor, você sabe sapatear? Quatro anos é muito tempo...

A Justiça Eleitoral jura que nosso sistema de votação é seguro, inviolável. E muitos concordam. E é moderno porque é feito por computador. Eu particularmente acho que as medidas tomadas para modernizar nosso sistema de votação foram contraproducentes: ao invés de melhorar a segurança, agravou-se substancialmente. E o culpado é o computador. Quando o computador ganhou fama, perguntaram a Carlos Drummond Andrade o que ele achava do advento capaz de revolucionar o mundo, o poeta declarou que não achava nada demais - desmistificou -, porque por trás do cérebro eletrônico, há o cérebro humano constituído de bilhões de neurônios - que é capaz de qualquer coisa, não o subestime.

Na última eleição, o Amapá bateu o recorde nacional pela brevidade em sua apuração de votos. Em pouco mais de uma hora, nós já tínhamos o resultado quentinho, saído indagorinha do forno. Quando o TRE conferiu o último voto, os escrutinadores eletrônicos berraram em uníssono: “Meu nome é Enéas!” Cai o pano.

* Escritor e professor de língua portuguesa e literatura.