As "russas" que vieram do frio,
custando 13 milhões de dólares.

Na verdade nem eram russas mas acabaram ficando conhecidos como "usinas russas", os doze turbo - geradores adquiridos pelo Governo do Amapá por 13 milhões de dólares em 1992, na época em que era governador um oficial reformado da Marinha, Annibal Barcellos. Foi uma das operações mais nebulosas já executadas por administradores públicos na história do Amapá..

Os turbo - geradores, chamados de "usinas", eram equipamentos que tinham a parte elétrica fabricada na Finlândia e a de força na Ucrânia, onde ocorria a montagem final e a exportação.. Cada um deles tinha capacidade limite de geração de 2.4 megawatts/hora de energia, mas em funcionamento normal geravam não mais que 1.8 megawatt/hora, com um consumo assustador de cerca de 980 litros de combustível por hora por megawatt de energia produzida, o que significava mais ou menos o dobro do consumo de geradores similares disponíveis no mercado nacional.

Os geradores ucranianos-finlandeses no caso, eram equipamentos fabricados para utilização em situações de emergência, - o que já daria para se deduzir em face do alto consumo - e mais que isso, para funcionamento em temperaturas abaixo de 20 graus, coisa que nunca seria encontrada em plena Amazônia brasileira, para onde vieram. Por ocasião da compra, houve denúncias de que essas máquinas eram propriedade de uma empresa de construção civil e rodoviária sediada no Paraná, cujos dirigentes, aliados políticos do governador, as teriam comprado por equívoco, e diante do risco do prejuízo as repassaram ao governo amapaense.

Foi assim. No verão de 1991, pela falta de água no reservatório da usina Coaracy Nunes, e de investimentos no setor energético, o Amapá descobriu o chamado racionamento e os apagões, um exemplo que mais tarde, pelas mesmas razões um presidente da República quase apaga boa parte do País, atribuindo a culpa à falta de chuva, e a são Pedro, o suposto responsável pelo controle das torneiras do céu, "por não ter mandado chover."

O Amapá precisava de 16 megawatts para sair da crise com alguma folga. As 12 "russas" nominalmente eram capazes de produzir 28.8 megas de energia, mas na realidade só produziam 21,4 megawatts, isso com um altíssimo consumo, e funcionando em temperaturas muito acima do limite de 20 graus recomendado pelos fabricantes.

Mas bem antes de o governo do Amapá acertar a compra das "russas" a Eletronorte anunciou a liberação de duas unidades termo - elétricas que se encontravam em Camaçari, na Bahia, cada uma capaz de produzir 30 megawatts de energia, e as duas em condições de entrega e de funcionamento, o que tornava desnecessário comprar e trazer os geradores ucranianos, poupando os cofres públicos de um gasto de 13 milhões de dólares. Uma terceira unidade foi doada ao governo do Roraima, que mandou buscar, instalou e resolveu o problema que enfrentava por lá, semelhante ao daqui.. No Amapá em lugar de mandar buscar uma ou as duas unidades que estavam na Bahia, o governo decidiu comprar os turbo - geradores ucranianos, pagando os 13 milhões de dólares acertados. Foi um escândalo. Parte da imprensa denunciou a compra como uma das maiores negociatas feitas no Amapá, mas apesar dos protestos e denúncias, as autoridades do Ministério Público e da Justiça se mantiveram olimpicamente distantes dos acontecimentos. Os geradores foram comprados, instalados, funcionaram durante algum tempo com um gasto absurdo de combustível, até que a Companhia de Eletricidade os desativou, passando um tempão à procura de alguém que manifestasse a intenção de ficar com eles. Detalhe importante: os sete desembargadores do Tribunal de Justiça e o procurador geral de Justiça do Estado, foram todos nomeados pelo governador que comprou as "usinas russas".

Quase dez anos depois da compra dos turbo – geradores ucranianos surgiram denúncias de que o porto de embarque deles com destino ao Amapá, não estava localizado em nenhuma cidade da Ucrânia e sim do Paraná, no Brasil. Ainda assim ninguém se preocupou em apurar qualquer coisa, até porque mesmo com tanto tempo passado, muitos interesses permanecem em jogo. Há no entanto quem diga que seria fácil descobrir: bastaria buscar o manifesto de carga do navio que transportou a mercadoria.

VOLTAR