ALGUMAS DO SEU PAULINO
Paulo Tarso Barros

Figura das mais conhecidas do bairro e de certo modo até na cidade, Seu Paulino era descendente do famoso Mestre Julião Tomaz Ramos, líder dos negros do Laguinho.

Antigamente, antes do governo territorial do capitão Janary Gentil Nunes, a cidade era pequena e os pretos viviam no bairro Central, onde plantavam, criavam animais e se divertiam dançando o Marabaixo. Janary, querendo instalar a doutorzada, gente oriunda de outras
plagas para compor a elite administrativa na área nobre, próximo da residência oficial, mandou construir casas na periferia e para lá, com muito jeito, transferiu os antigos remanescentes de escravos, que já enfrentaram a desconfiança dos padres italianos e do missionário belga padre Júlio Maria de Lombaerde, que por aqui chegou em 1913, depois de uma longa viagem
marítima e fluvial, originada no Porto de Antuérpia, tudo devidamente registrado nos seus diários, escritos em francês.

Seu Paulino, já de meia idade, era funcionário da Prefeitura no tempo em que se passam estas histórias. Como não havia muito que fazer, raramente ele aparecia na repartição. Todavia, a cada final de mês tinha que assinar o famigerado ponto e aproveitava a ocasião para rever os amigos, conversar e saber das novidades. Sempre comentava com os barnabés:

- Meu filho, político é como puta esperta: te rouba sorrindo. Nenhum presta. Vocês vão ver quando os homens do colarinho branco lá da Capital Federal transformarem isto aqui em Estado: vai ser a pior desgraça do mundo, pode escrever, pois vai ter político de toda espécie e qualidade, candidato saindo pelo ladrão. Aí é que nós vamos ver roubalheira, patifarias,
desavenças, trapalhadas e tudo o que não presta. Tomara que até lá eu já esteja de ossos brancos no cemitério de São José ao lado dos pioneiros.

Um outro costume de Seu Paulino era ser fotografado. Onde estivesse, em festas, reuniões, e aparecesse um fotógrafo, logo os flashes disparavam.
Só tinha um problema: as fotografias eram quase todas rejeitadas e devolvidas.
Ele resmungava, dizia que aquele não era ele, botava mil e um defeitos, mandava vender a outra pessoa e acabava não comprando o material, para desespero dos profissionais.

Com o passar do tempo, Seu Paulino já não se dava mais ao trabalho de ir até ao prédio da velha prefeitura para assinar o ponto. Tinham de procurá-lo na residência do seu primo Pavão, onde uma turma de aposentados e amigos jogava dominó, tomava gengibirra enquanto passava o tempo, usufruindo bons momentos na quietude das tardes mornas e nos finais de semana. Os funcionários mais novos chegavam com a folha e esperavam o término de uma
partida para que Seu Paulino assinasse a freqüência, sempre resmungando:

- Meu filho, até aqui no meu joguinho vocês vêm me incomodar com esse negócio de assinar o ponto? Será que não se pode mais nem jogar um pouquinho com os amigos? Duvido que no tempo do Capitão Janary se procedia dessa maneira desrespeitosa e humilhante com os funcionários. Eu já tenho mais de trinta anos de serviços prestados e o meu nome já deve ser conhecido até pelo presidente da República, quanto mais de um prefeitinho pé rapado aqui
da nossa terra, acostumado a tomar açaí e comer camarão salgado lá no Mercado. Mais dia menos dia ele sai, ora se sai. Aí eu vou rir na cara dele, desse besta quadrada que só sabe fazer um "ó" porque senta numa cadeira.

Mas um certo prefeito, ao tomar posse e querendo moralizar o avacalhado e ineficiente serviço público municipal, fez publicar um rigoroso edital convocando todos os barnabés para que se apresentassem no acanhado e decadente prédio da prefeitura. E o mais importante: que trabalhassem, fizessem alguma coisa, justificassem o salário pago com dinheiro público.

Foi um Deus nos acuda, pois o edital ameaçava de demissão e severas punições quem não comparecesse. Na segunda-feira fatal uma multidão de revoltados e humilhados funcionários tentava se acomodar nas exíguas instalações; e cada qual buscava uma mesa, uma máquina de datilografia, aproximava-se de um arquivo, de uma prateleira ou andava com carimbos e pastas nas mãos. Foi um esforço inútil, pois eram centenas, milhares de desesperados que queriam ser vistos pelo alcaide ou, pelo menos, ser notados pelos incontáveis chefes.

Todavia, foi impossível que boa parte da população da cidade se enfiasse na Prefeitura. A solução encontrada pelo prefeito foi nomear uma comissão para estudar o problema, sem
pensar em demissão, pois não seria uma atitude política adequada, disseram-lhe os competentes aspones (assessores de porra nenhuma).

Depois de seis meses de profundos estudos, análises, relatórios, pareceres e sugestões, a solução apresentada foi a seguinte: montar uma espécie de revezamento, em que se trabalhava uma ou duas vezes por semana, meio expediente. Só assim, dessa maneira brasileiríssima, o assoberbado funcionalismo público municipal podia cumprir suas obrigações
constitucionais. Uns dentro da repartição, outros em casa. Todos juntos só se um novo edifício, bem maior, fosse construído. Uma outra atitude ditatorial do prefeito: todos tinham de assinar o ponto no próprio local de trabalho. Os funcionários encarregados da papelada,
porém, foram dizer-lhe que Seu Paulino era um caso à parte, funcionário antigo, famoso por ser parente do Mestre Julião, já quase com direito a aposentadoria. Não convenceram e o prefeito mandou dizer que ele teria que vir assinar o ponto. Quando recebeu o recado do chefe autoritário e exigente, Seu Paulino, que estava no costumeiro jogo de dominó, no pátio
da residência do primo Pavão, tirou o cachimbo da boca e comentou:

- Meu filho, eu sabia que isso ia acontecer. Era só mudar o prefeito que ia logo começar essa perseguição política em cima da gente! Nesta terra, ninguém tem sossego, não se pode nem mais viver em paz, jogar um dominó ou tomar um tacacá que ficam logo inventando moda e serviço. Por isso é que esse país nunca vai pra frente - e aqui nesta terra muito menos, onde tudo parece crescer pra baixo feito rabo de cavalo. A gente quer viver em paz, com tranqüilidade, junto da família e dos amigos, quando aparece um espírito de porco com idéia de jumento! Não se respeita mais nem os cabelos brancos de um cidadão, um pai de família que tanto já trabalhou nesta cidade desde a época do padre Júlio Maria de Lombaerde. Eu era menino barrigudo e pimbudo mas me lembro. Sou do tempo em que esta cidade era pequena, só tinha mato, lama, poeira e malária. Não se tinha salário nem nada. Cinema só se conheceu por aqui por causa do padre belga, que trouxe uma máquina velha e ainda tinha que traduzir!
a língua enrolada dos artistas estrangeiros, senão o povo não ia entender coisa nenhuma.
Quase ninguém sabia ler o português, quanto mais língua dessa gente lá de onde o diabo perdeu as botas!

Certa vez, seu Paulino ia dirigindo uma velha camioneta Ford, apelidada pelos seus amigos de Cafuringa. Esse veículo, fabricado na década de 60, não tinha chapa, nunca fora vistoriado e raramente recebia alguma manutenção, pois ninguém queria se indispor com o velho funcionário, membro de uma numerosa família. Com dificuldades na visão, ele dirigia devagar e
nem os guardas ousavam pedir a sua carteira de habilitação - documento que ele jamais possuiu: gabava-se de ser um exímio motorista e não precisava dessas besteiras. Naquele tempo, a cidade ainda era pequena e não havia tantos carros como em nossos dias. Mesmo assim, aconteceu de seu Paulino avançar a preferencial numa das ruas do seu bairro, o Laguinho. Ninguém se machucou, mas o veículo de um camarada chamado Cleber, que não tinha dois meses de uso, ficou bastante danificado. Seu Paulino, calmo e com ar de
superioridade, desamarrou a porta da Cafuringa (cuja fechadura era um pedaço de corda!) e foi logo perguntando ao! Cleber:

- Meu filho, onde você mora?

Pensando que seu Paulino fosse querer saber do seu endereço para pagar o prejuízo, disse-lhe que morava no bairro de Santa Rita. Seu Paulino logo retrucou com aquele seu jeito:

- Meu filho, você já está errado, completamente errado! E bota errado nisso, meu filho!

- Eu? Mas foi o senhor que avançou a preferencial e amassou o meu carro!

- Meu filho, ouça bem e você vai me entender: você está errado, erradíssimo. Mora lá no Santa Rita e o que diabos vem fazer pra cá? Se estivesse lá no seu bairro, sossegado, cuidando da sua vida, duvido que tinha acontecido esse acidente. Eu já moro há mais de cinqüenta anos por aqui, todo mundo me conhece, sabe como é...

Como se nada houvesse acontecido, o velho entrou na sua camioneta e foi embora, deixando para trás um sujeito bem zangado e no prejuízo. O empresário Salomão Alcolumbre, dono de postos de combustível, desejando ampliar sua rede de estabelecimentos, soube por amigos que Seu Paulino dispunha de um ótimo terreno, bem localizado em área ideal para a
construção de mais um ponto de vendas. Mesmo abandonado, o matagal pujante, pois o
proprietário não tinha interesse em construir absolutamente nada no local, Seu Paulino se fez de desinteressado pela venda, já prevendo uma substancial valorização do imóvel. Dezenas de vezes o empresário Alcolumbre procurou o barnabé e ele se mostrava indiferente, assim como quem não quer nada. Até que um dia, já cansado de tantas investidas para consumar o
negócio, Alcolumbre lhe disse:

- Seu Paulino, bote preço no seu terreno. Mas por favor, vamos logo decidir esse negócio hoje, pois eu preciso abrir mais um posto de combustível.

O velho, impassível, ficou pensativo por alguns minutos, acendeu seu cachimbo, deu algumas enigmáticas baforadas e fez uma proposta, deixando o empresário irritado. Este foi imediatamente lhe retrucando:

- Seu Paulino, mas esse terreno é muito pequeno e não vale tudo isso que o senhor está me cobrando. Talvez a metade desse valor. Se quiser fechar negócio, pago logo cinqüenta por cento em dinheiro e depois o senhor me passa a escritura.

- Salomão, meu filho, você é um sujeito inteligente. Eu te vi menino e hoje você é um homem rico, orgulho da sua mãe, dona Alegria, uma senhora distinta e que soube criar vocês, ensinar os macetes comerciais. E que mulher competente: todo mundo na família é bem de vida. Por isso mesmo preste bem atenção: tu só estás calculando o preço aqui desse pedaço de
terra e mato... E o resto do terreno, será que não conta, rapaz?

- Mas que resto de terreno, Seu Paulino?

- Que resto? Tu já olhaste pra cima? Tem o céu, tem as nuvens, tem as estrelas, a atmosfera, pássaros e tudo o mais. Não existe trena que meça esse terreno aí para o rumo de cima, nem foguete de americano ou russo. E se você fizer um buraco aqui no meio vai sair do outro lado do mundo e é bem capaz de achar ouro, prata e até mesmo petróleo, pois dizem que aqui no Amapá tem muito petróleo para ser descoberto... Quem sabe não esteja por
aqui esperando por você, que já vende gasolina e é bem entendido no assunto?
Se junta aí com os árabes e vai ficar mais rico ainda...

Contam por aí, principalmente o povo do Laguinho que, ao morrer, já bem velhinho, os familiares foram preparar o corpo. Como não era de seu estilo e modos tomar banho regularmente - porque, segundo sua opinião, pau com casca dura mais - muitos juram que seu corpo se remexeu quando alguém jogou um pouco de água sobre ele.

Seu Paulino, Seu Paulino...


PAULO TARSO SILVA BARROS é licenciado em Letras pela UNIFAP, funcionário público estadual e presidente da Associação Amapaense de Escritores - APES.
Também é membro da União Brasileira de Escritores - UBE e da Academia Arariense e Vitoriense de Letras. É autor, dentre outros livros: Poemas de Aço e No Dentro de Mim (1985); Existencial do Pássaro Migratório, Ondas Interiores, Inventário das Buscas, Canção numa Hora de Encontros e Desencontros (1997, todos de poemas) e da coletânea de contos O Benzedor de Espingarda (1998). http://sites.uol.com.br/paulo.tarso é a sua página na
Internet.