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Seu
Didi e outros
Gurupá,
13 de março de 2006.
Carlos Augusto Ramos
Seu Didi é um cametaense esperto e de raciocínio rápido
que conheci quando de uma viagem minha para sua cidade natal. Apesar de
muito ter o que caminhar ainda por aí, não me recordo de
topar de frente com um sujeito tão mentiroso. Um mentiroso do bem
e de carteirinha que orquestra potocas e compila outras que vai escutando,
aumentando sempre o seu arsenal fantástico de estórias.
Não admite, mas vai contando. Pensando no tema, resolvi passar
aos senhores e senhoras alguns “causos” estapafúrdios.
Dignos de Gabriel Garcia Márquez.
Conta seu Didi que estava almoçando com os compadres de mato um
tambaqui assado pra lá de gordo. Pelo tinha anunciado assim o cozinheiro
da turma. Eram ao todo seis homens, sem contar o mestre-cuca.
- Que parte do pêxe tu tá comendu? – indaga seu Didi.
- A barriga do pêxe. E a tua?
- A barriga também – e aponta com o beiço embicado
para que estava sentado à esquerda do primeiro querendo saber da
resposta.
- A barriga.
- E tu lá? – pergunta novamente Didi.
- A barriga.
- A barriga
- A barriga.
- Mas que porra de pêxe é esse, cozinheiro??! – gritaram
quase como coro para o homem perto da fogueira.
- Que pêxe?! É surucucu que eu preparei pra vocês!
- Seu Didi, surucucu? O senhor não queria dizer sucuri? –
perguntei na tentativa de abrandar a lorota, pois o veneno da cobra amarela
e preta era de matar.
- Não, seu Carlos, era surucucu mermu.
- Tá bom – senti uma pontada no estômago.
Outra hora me contou a história do homem que caiu dentro do buraco
de uma imenso angelim. Foi dar uma espiada no oco, escutou uns miadinhos
por lá dentro e pensou: “tem filhote de onça aqui”.
De tanta curiosidade, acabou caindo naquela escuridão, em cima
dos gatinhos, que prontamente lhe morderam o calcanhar. “Ainda bem
que não matei os bichinhos, vou levá pra criá”.
De repente lembrou o peste que a mãe dos bichanos iria chegar e
prontamente tratou de escalar a árvore. Tentou, tentou. Não
conseguia subir. “C*!! que m*!! Tô f*!!”. Chorou que
nem um condenado, limpou as lágrimas no sovaco catinguento e começou
a reza para mil perdões dos males feitos nessa terra de pecado.
“Perdoai-me senhor!”.
Lá vem a bichona. Mas segundo seu Didi, toda onça começa
a descer em buraco de árvore metendo primeiro a traseira para garantir
que as unhas freiem a possível queda. Certo momento o rabão
da felina chega quase e encostar na cara do candidato a almoço
quando teve a idéia! Ou tudo ou nada! Puxou da caixa de catarro
todo o ar disponível e já ficando roxo soltou um berro segurando
ao mesmo tempo na cauda da onça:
- ONÇAAAAAAA!!!!!!!!!
A bicha se assustou e deu um salto para foram do angelim, arrastando
consigo o caboclo até lá no meio do mato. Foi felino para
um lado e homem pro outro.
Um menino perguntou ao Didi:
- Mas a onça deu conta de levar o macho?
- Meu filho, no medo, tudo se faz...
Senti outra pontada na barriga.
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