Quem paga a conta? Sir Papai Noel?
Até que enfim o Príncipe Charles arranjou um motivo
para justificar sua existência: a preservação
da Amazônia. Aos 60 anos, nosso “Sir Sassá Mutema”
lidera uma iniciativa que tem por objetivo reduzir as emissões
de CO2 decorrentes das queimadas das florestas tropicais.
Da maneira como é tratado, o discurso da preservação
da Amazônia é uma idiotice que visa ocultar o verdadeiro
problema do desmatamento: o consumo dos países ricos. São
exatamente esses países que promovem o plantio de grãos
sobre a floresta para garantir a produção de quadrúpedes
sem polegar opositor e movimento de pinça. São exatamente
esses países que criam patentes sobre direitos à nossa
biodiversidade sem repartição justa dos benefícios.
Isso sem lembrar o ouro brasilis aportado da Colônia para Portugal
e de lá para a Inglaterra em troca de bens manufaturados, a
pirataria das sementes da seringueira pelos ingleses nos idos de 1876
e por aí vai...
Sugiro um debate sobre a preservação da Amazônia
com a melhoria da qualidade de vida de sua população.
E aí a coisa pega, pois para melhorar o padrão de vida
dos 23 milhões de habitantes da Amazônia, além
dos nossos irmãos africanos, explorados por séculos
pelos países ricos, seria necessária uma redução
do padrão de consumo dos países ricos, um aporte tecnológico
solidário para as regiões carentes do planeta, além
de restrições ao consumo de produtos originados de práticas
ilegais, como aqueles derivados da destruição da floresta.
Por outro lado, meu receio é que a iniciativa do Príncipe
Charles resulte em mais pressões externas para criação
de novas áreas protegidas na Amazônia, enquanto aglomerados
urbanos como Laranjal e Vitória do Jari se multiplicam na região,
modificando o cenário descrito por Bertha Becker de “floresta
urbanizada” para “floresta favelizada”.
O caso do Amapá é bem exemplar. Mesmo com 70% de seu
território abrigando áreas protegidas e 90% de população
concentrada nas cidades, a qualidade de vida no Amapá vem declinando
acentuadamente, com estagnação de indicadores básicos
para uma vida decente, como é o caso do saneamento nas cidades.
Estimo que para sanear as cidades do Amapá sejam necessários
investimentos da ordem de 1 bilhão de dólares, valores
estes semelhantes aos gastos efetuados com a recuperação
do rio Tietê. São Paulo sustenta grande parte da economia
do País e o Amapá presta serviços ambientais
não valorados pela economia neoclássica ou tradicional.
Não considero que as áreas protegidas são responsáveis
pela favelização da Amazônia, longe disso, mas
defendo que devemos valorizar e valorar a preservação
da região como estratégia para negociar benefícios
coletivos derivados do pagamento pelos serviços ambientais
usufruídos globalmente. Um exemplo possível é
a conversão da dívida externa brasileira para implantação
das áreas protegidas da Amazônia, priorizando fortalecimento
institucional, infra-estrutura de acesso e saneamento das cidades
próximas. O resto fica por conta da iniciativa privada, como
acontece nos países onde os parques e reservas funcionam.
Se não for assim, com iniciativas transformadoras, próximas
do sentido revolucionário dado por Trotsky ou libertadora na
concepção de Foucault, sem sectarismo, uma Amazônia
Sustentável estará cada vez mais distante. Ou, como
ironiza o jornalista Paulo Silva, vamos continuar acreditando que
Papai Noel existe e que ele agora se chama Príncipe Charles.
Marco Antonio Chagas, doutorando UNIFAP/UFPA-NAEA
(marco.chagas@uol.com.br)