A SORTE E A FALTA DE SORTE

João Silva

A sorte pode se chamar Janaina, mocinha que, por algum motivo, demorou abrir a porta para que nós, eu e o médico Ubiratan Silva em visita ao jornalista Antônio Correa Neto, saíssem para retomar o carro que nos trouxe até ali, um Siena estacionado à Rua Mato Grosso, diante da residência do amigo de longas datas.

Estaríamos agora cadáveres, sepultados com as honras que certamente nos prestariam nossa família, os nossos amigos, e a sociedade amapaense, que iriam ter muito trabalho para retirar nossos corpos presos ao que sobrou do impacto pavoroso provocado por um ônibus desgovernado, em altíssima velocidade, um bólido assassino, desses que estão por ai e a gente não sabe.

Pacoval, 22 de outubro, 20, 45, naquela hora e dia, a poucos metros de nós, alguém estava no lugar errado, Rosiany do Rosário, 23 anos de idade, bela moça que acabara de sair do emprego e se dirigia ao ponto de ônibus, certamente pensando em voltar pra casa, depois de um dia exaustivo de trabalho.

Quem me dera se pudesse dizer-lhe: “Não, por favor, por ai não, aperte o passo, há um epilético ao volante de um ônibus assassino! Ele vai passar por onde você caminha”. Pobre Rosiany, deserdada da sorte que me poupara a vida, sem um anjo da guarda, sem uma circunstância que pudesse desviá-la daquele encontro.

Sei meu amigo que foi uma noite de horror ver um ser humano com as pernas dilaceradas chorando no asfalto dores lancinantes; milagrosamente ainda reuniu forças para sobreviver catorze dias depois do acidente, mas não resistiu.

Estou aqui para agradecer a Deus por nossas vidas, a minha e do meu irmão, mas para pedir que rezemos por Rosiany do Rosário, 23 anos, que não resistiu e faleceu nesta quarta-feira na UTI do Hospital Geral de Macapá, para aonde fora levada da cena do seu drama, na verdade epílogo de um destino traiçoeiro e impiedoso com sua vítima jovem, bonita, saudável, esperançosa.

Não quero nem posso ficar só nisso. Atropelamento seguido de morte, como o de Rosiany, acontece quase todas as semanas nesta cidade sem lei, nesta Macapá de trânsito sem fiscalização, cujo número de vítimas fatais ou não fatais exige do Estado dispêndio de grandes somas de recursos com o tratamento das vítimas dessa tragédia que enluta os lares do Amapá.

Nossos governantes, o Ministério Público, nós, a sociedade, não podemos nos habituar com a insensibilidade dos jornais empapados do sangue de inocentes todos os dias, com o noticiário sensacionalista, com a rotina da violência no trânsito; isso gera mortes, feridos, aleijados, choro e a revolta dos que são atingidas por tragédias que poderiam ser evitadas.

A pergunta é: como um indivíduo epilético conseguiu habilitar-se para trabalhar numa empresa de transporte coletivo, para exercer uma tarefa delicada, como a de transportar vidas pelas artérias de uma cidade, dirigir por vias pululantes de cidadãos com seu direito de ir e vir? Quem deveria impedir tragédias como a que levou do nosso meio Rosiany do Rosário, 23 anos, e poderia ter levado a mim, a outros no caminho daquele ônibus desgovernado?

Claro que o Ministério Público Estadual tem que intervir nisso, tem que acionar a empresa e a concessionária do serviço, no caso a PMM, aproveitando para investigar não só o que aconteceu, mas todas as mazelas, as deficiências que infestam o setor, levando conta seu histórico de violência, de desrespeito ao usuário de transporte coletivo de Macapá.

A imprensa responsável poderia ajudar nessa faxina, afinal de contas Rosiany poderia ser eu, você, a minha filha, o seu filho, alguém da estima de qualquer um; fazer isso é se colocar na defesa da sociedade, como manda o bom jornalismo, é prevenir desgraças, é o mínimo que podemos fazer em memória de Rosiany, por uma cidade mais humana, por um transito cidadão.

João Silva - 62 anos, jornalista amapaense.