AMARGAS LIÇÕES

João Silva

Seis de janeiro de 1981, boca do Cajary, Amapá, Brasil! Ninguém poderia imaginar, mas houve quem percebesse algo como piar sinistro de aves noturnas - triste anúncio da tragédia, quem sabe, chegando de mansinho, no escuro daquela noite sem lua, quieta e abafada como as noites de janeiro na floresta Amazônica...

Repentinamente solavancos, gritaria, pânico generalizado entre as seiscentas e poucas pessoas que viajavam no barco a motor Novo Amapá, que emborca,lançando no rio, à própria sorte, pequena multidão de passageiros da agonia, aflitos e indefesos.

Trabalhadores da Jary Florestal, seus familiares retornando depois das festas de fim de ano, num piscar de olhos, entram para uma estatística sinistra, nunca confirmada, de 300 mortos naquele que se conhece como maior naufrágio registrado na história da Amazônia e do Brasil.

Lembro do brilho no olhar dos que sobreviveram ao sinistro; muitos choravam (e choram até hoje) a perda de filhos, esposa, amigos, de famílias que desapareceram para sempre no negrume daquela noite fatídica, tragados pelas águas; centenas de vítimas indefesas diante do destino cruel que marcara com eles um encontro para sempre.

Na época, ouvi depoimentos impressionantes; conheço sobreviventes que passados tantos anos ainda sofrem pesadelos, não conseguem livrar-se da visão do barco sinistrado; uns ainda ouvem os sons horripilantes da tragédia; outros não esquecem o vulto dos fortes, daqueles que enfrentaram a natureza traiçoeira e violenta do desastre, numa luta desigual para salvar velhos, crianças e mulheres indefesos.

Claro que os tentáculos da tragédia teriam indo mais longe se não luzisse na escuridão a áurea dos heróis anônimos, indivíduos que arriscaram a própria vida para salvar outras vidas, numa ação humanitária perigosa, comovente, bem no centro daquele cenário de horror.

A tragédia produziu estórias de vida e de morte, episódios tristes e bem sucedidos; recordo-me do drama vivido por um homem que conseguira sair ileso, atracado a um violão, guardado em sua casa como troféu e tábua de salvação da sua vida; trágico também o caso daquele pai de família curvado pelo dor do seu drama pessoal, ao constatar que, no desespero da escuridão, salvara crianças que não eram os seus filhos, levados pelas águas...

Também emocionou o drama da moça deficiente e o imponderável da nudez exposta, necessária para preservar a própria vida. E o que dizer então da menina Andréia e da mãe, presas no interior da embarcação, resgatadas quando a morte por asfixia parecia inevitável? A mãe não sabia se sorria ou se chorava enquanto relatava a populares e à imprensa o milagre sem contar o “santo” que operara o milagre.

Assustada, mulher só sabia dizer que o homem era forte, fizera um carinho na cabeça da menina de poucos meses, dizendo que mãe e filha não haviam sido salvas por ele, mas por Deus que lhe dera força pra arrancá-las das águas com vida, desaparecendo, em seguida, para nunca mais ser visto...

Os fatos e a história condenam o Governo do Território do Amapá, omisso, negligente, desde cedo minimizando a extensão da tragédia. Isso se traduziu em centenas de corpos sobre as águas, amarrados uns aos outros, boiando em adiantado estado de putrefação, a espera das providências que demoraram a ser tomadas.

Entre os fatores causais da tragédia, a história aponta para a fiscalização negligente, excesso de lotação, a ganância dos proprietários do Novo Amapá.
Como senão bastassem tantos crimes contra a vida, ainda foi precário o reconhecimento das vítimas, grande parte delas enterrada em vala comum.

Mais grave que tudo, entretanto, foi a insensibilidade dos abutres travestidos de salvadores da pátria - na verdade maus políticos, empresários inescrupulosos em conluio, que nunca souberam explicar que destino foi dado ao dinheiro que a União teria mandado para indenizar as vítimas do naufrágio do Novo Amapá.

Tantos anos passados, poucos pagaram pelo crime cometido contra tantas vidas, outras tragédias parecidas com a do dia 6 de janeiro de 1981, continuam a acontecer nos rios da Amazônia. Não aprendemos nada com tantas mortes, nenhuma família foi indenizada, afinal os 300 e poucos brasileiros mortos eram trabalhadores anônimos, ao contrário das vítimas do naufrágio do “Bateau Muche”, por exemplo - pessoas de classe média da sociedade do Rio de Janeiro, cuja maioria das famílias já foi indenizada e os responsáveis devidamente punidos na forma da lei.

Tristonhos, cabisbaixos, feridos na sua alta estima, sobreviventes, familiares dos que se foram, vagueiam por ai, coração cheio de mágoa, declarando solene desprezo à justiça dos homens, mas unidos na fé inquebrantável de que a lei de Deus não faltará aos abutres que ganharam dinheiro com o sinistro!

Este registro, afinal, não teria sentido sem que mencionasse o nome e bravura do amapaense José Pantaleão de Magalhães Picanço, que não é meu parente, falecido em 2002, salvador de muitas vidas que já pareciam perdidas.

Rezemos por ele e por outros heróis anônimos, pela memória de todos os nossos irmãos que morreram nessa tragédia que enlutou o Amapá, incluindo aqueles cujos corpos nunca foram localizados, caso de Ana Paula Sampaio, jovem, bonita, inesquecível.

Reconhecer também, em memória, a luta sem trégua do advogado Pedro Petcov, que dedicou parte de sua vida à tentativa de obter na Justiça a indenização a que têm direito os familiares daqueles que pereceram na tragédia do Novo Amapá.

João Silva - 62 anos, jornalista amapaense.