FUTEBOL: RECORTES DE UMA PAIXÃO

João Silva

Como esquecer cerebral Didi, bola debaixo do braço, naquele flagrante de “Fatos & Fotos” que só ganharia movimento por estes ermos do Brasil 16 anos depois da Copa de 58, com a chegada da televisão ao Amapá?! Difícil não lembrar o “Príncipe Etíope” indignado, mas sereno! Ele sabia que nosso céu tinha mais estrelas, tanto que viramos o jogo, vencemos a Suécia, conquistamos a primeira Copa, e aquele negro levando a bola embaixo do braço entrou para a história do futebol.

Tudo no futebol de Waldir Pereira era vistoso: passadas largas, lançamentos precisos, jogo pensado com a cabeça erguida sobre tronco ereto como um bastão de golfe. Um fenômeno que enxergava por ele e pelos outros. Na crônica de Nelson Rodrigues sobre habilidade do craque do Botafogo e da seleção, a bola lhe rendia obediência cega, era uma cadelinha amestrada que vinha lamber os pés do seu mestre e senhor.

Tudo a ver, já que os pés de Didi tinham a precisão das mãos de um astro do basquete da NBA, como Maicon Jordan, eis a questão! Jogador capaz de botar a “gordinha” naquela forquilha onde a coruja dorme, ou em outros lugares menos prováveis, a curta e média distância. A “folha seca do homem era mortal”, diriam algumas lendas e vítimas - Castilho, Veludo, Barbosa, se por aqui ainda estivessem.

Olha aqui, dava pra botar defeito na arte de Rivelino, Falcão, Sócrates, Zizinho, Ademir da Guia, Tostão ou Zózimo? Quem poderia ficar indiferente aos dribles fenomenais de Garrincha, ao gênio de Pelé, Romário, Reinaldo dentro ou próximo da área? No Mequinha do meu coração, década de oitenta, brilhou um jogador chamado Moreno; vi alguns jogos dele pela televisão: era um encantamento, jogava muito, meu amigo.

Claro, se tirar uma manhã de sábado pra levar um papo com meus amigos José Maria Trindade, Agripino Furtado, Humberto Moreira, Guilherme Jarbas, este alguns pares de anos mais velhos que eu, tenho certeza que irão citar mais de uma centena de talentos que viram jogar aqui, no futebol paraense, em redor do Brasil e do mundo transmitindo jogo de futebol.

Aí é que fico imaginando os primeiros passos dos tucuju nos campinhos toscos da Macapá dos lampiões que eu não cheguei a ver, pra não falar na chatice que eram as bolas de 50, 60 anos atrás?! Pneus duros, bolas de meia, de laranja-lima ou de seringa, lembram? Penso que cultivamos a tradição do bom futebol por que tínhamos bons técnicos, molecada esforçada que assimilou os fundamentos do jogo bem jogado, o que compensava as adversidades.

Para falar com a experiência de quem jogou uma bolinha, digamos, melhorou um pouquinho depois da construção do Glicério Marques, depois que os padres do PIME fundaram o Juventus e botaram a garotada pra jogar com bolas da Pirelli trazidas da Europa na década de 60. Mais pra traz, meu pai falava de um atacante chamado “Baloa”, o melhor que vira jogar em sua mocidade, apesar de campos e bolas ainda mais rudimentares.

Mas isso foi no tempo em que o velho Duca Serra tinha oito anos de idade e queixadas - porcos selvagens, saiam das matas da região do Igarapé das Mulheres ainda indevassada para assustar os moleques da província, bem antes dos clássicos Panair e Sesp, Time Negro e 24 de Outubro, 1918, por aí, para salientar depoimento dado por gente que viveu a fase jurássica do futebol amapaense.

Tenho guardado em acervo particular, aliás, foto em preto e branco em que meu tio, então prefeito de Macapá, José Serra e Silva aparece dando ponta pé inicial, na Praça Assis de Vasconcelos, em um remoto Macapá e Amapá de 1949, quando ainda não existia o Glicério Marques. Na foto aparece a figura emblemática de Acésio Guedes, um dos dirigentes históricos do azulino da Avenida FAB; touceiras, não! Tinha de todo tamanho, não sei como era possível rolar a bola naquele “gramado” que nada mais era que uma infinidade de montinhos artilheiros.

Mais da metade dos anos 40, inicio dos anos 50, até final dos anos 60, brilharam por aqui Vadoca, Cordeiro Gomes, Sabá, Mafra, Bibito, Walter Nery, João Leite, Aracati, Amaujaci, Avertino, Raminho, Nego Sérgio, Rouxinho, Justo, Cabeça, Justo, Edésio, Wlademir, Mafra, João Leite, Dezesseis, Domingos, Chicão, Mazola, Perigoso, Aristeu, Astrogessildo, Pompéia, Guilherme Cãozinho, Fogão, Cochichiba e outros.

Mais tarde surgiram os campos do Santana e do Manganês, em Serra do Navio; e aí pudemos ver melhor o preciosismo de um Moacir Mussuin, de um Haroldo Pinto, de um Círio, a elegância do Biló despertando encantamento em Gentil Cardoso; como não lembrar petardos de Jangito, o bolão do Enildo, Percival e Cutia buscando o fundo do campo, rente à linha de lateral - pela esquerda ou pela direta, como não se faz mais hoje em dia?

Ponho ainda nisso, o toque perfeito de Léo e de Zezinho Macapá, o talento do Lelé, do Perereca e do Palito, que a Revista do Esporte chamou de “Pelé Branco do Amapá”; não esquecer Juci e o seu jogo sem bola, a elegância de um Célio Paiva, a classe do Alceu, a categoria do Chevrolet, as cobranças de falta de Bill Maravilha, a boa fase de Mário Sérgio, o futebol ofensivo de Cazé, Nego, Antônio Trevizzani, Ubiraci e Miranda! Eu tiro o chapéu para Waldirzinho, para as canhotinhas de Aldemir França, Moacir Banhos, Mariozinho, para o futebol de Campos e aqueles canudos de fora da área.

Ah, paciência, amigo, porque não posso deixar de citar Jason e os filhos do Erundino: Aldo com o pé na Seleção Brasileira, Bira brilhando no Internacional de Falcão; salve a raça do Currou, o fólego do Orlando Tôrres, o futebol do Albano, Bandeirante, e Tico-Tico encantando Zizinho, que citou o atacante como “segundo maior driblador do futebol mundial, depois de Mané Garrincha”.

Entre os recortes dessa paixão que se chama futebol, impossível não citar Marcelino, um Messi que ainda estava por vir, para lembrar a bola caprichosa, a cadelinha que vinha lamber os pés dos seus mestres e senhores, no dizer do inesquecível e bom Nelson...