GOVERNANDO NO VAREJO

João Silva

Refiro-me ao governo Waldez Góes, uma colcha de retalhos que se arrasta na base da construção de reformas de escolas pelo olho da cara, centros comunitários, campos de futebol (arenas), recapeamento de vias e outras obras intermináveis, como a duplicação da Tancredo Neves.

Sem fiscalização dos deputados, com uma ou duas exceções, gasta mal os recursos públicos; é campeão do clientelismo, do nepotismo e três secretários respondem a processo pela prática de crime do colarinho branco; também perde tempo, credibilidade e dinheiro no conluio com tubarões da imprensa consumidos por uma obsessão: a morte política dos Capiberibes.

Além de dar um pedaço do governo a quem quisesse, WG aumentou o tamanho da máquina para acomodar descontentes de ocasião, criou secretarias inócuas, fomentou o paralelismo, soltou grana pro futebol comprar pernas de pau, alimentou a construção de um governo virtual gastando fortuna que poderia manter o sistema de saúde pública e melhorar a qualidade de vida do povo do Amapá.

Foi nesse cenário, nos últimos cinco anos, que se agravou a crise da CEA, prestes a entrar em processo de federalização, e da CAESA também, esta em lenta agonia nas mãos da deputada Lucenira Pimentel e do seu preposto, Luis Carlos Galvão, a quem coube dirigir a empresa no acordo que dá sustentação política ao governo de coalizão, há pouco menos de seis anos a frente dos destinos do Amapá.

Faltando gestão e dinheiro, não há como salvar a Companhia de Água e Esgoto do Amapá, diz um servidor da empresa; então o jeito é culpar os outros, usando a parceria com a imprensa chapa branca. A CAESA é um exemplo de gestão temerária que já teve cinco presidentes desde que atual governo chegou ao Palácio do Setentrião.

Claro que nossos governantes estão sob pressão, já que as deficiências do governo passam pela avaliação do eleitor, casos do aumento da violência urbana, dos problemas que afetam o fornecimento de água e de luz; e uma eleição pode decidir a vida deles, o projeto de poder que sustentam suas ambições; não fosse isso o governo e seus aliados não estariam dia e noite no rádio, na televisão, nos jornais enxergando sabotagem onde existe irresponsabilidade com a coisa pública.

É um ritual ditado pela velha cartilha a que se apegam os maus gestores, o de acusar os outros pelas tragédias que causam à população, que não é de ferro, portanto percebe, reclama, e pode decretar nas urnas a derrota dessa gente festeira e indisposta ao trabalho. O governador Waldez está à véspera de completar a primeira metade do segundo mandato, para lembrar que a outra metade acaba em abril de 2010, se quiser chegar ao Senado.

Desembargador e radialista, Gilberto Pinheiro, em uma emissora da “capital do rio-mar”, como gosta de dizer, revelou seu desencanto com a falta de união dos políticos em torno dos investimentos capazes de arrancar o Amapá da letargia em que se encontra, tanto de parte do governo federal quanto do governo local; falou sobre a abundância das nossas riquezas naturais ainda inexploradas, descartou o desenvolvimento sustentável como solução, e defendeu a celebração de um pacto pelo Amapá, se entendi bem.

No ponto dos recursos públicos quero discordar. No Amapá e no Brasil tem dinheiro de sobra; o que falta é evitar que seja sugado pela corrupção endêmica; a grana do povo é do povo. Não pode servir para financiar a mentira, manter currais eleitorais como os “Troamas”, os “Desafios” nem para alegrar “Beija-flores” da vida ou ser distribuído em confraria. É o que se passa com a saúde pública sempre precisando de mais recursos, segundo homens daqui e de Brasília, quando dinheiro há, mas nunca chega a seu destino.

Gostei muito quando disse que não há prosperidade para todos, que nada vai adiante sem amor a terra em que se vive e trabalha; é uma das convicções inarredáveis da minha vida que levei para a imprensa e o rádio, quando o comunicador de toga sequer imaginava que um dia poderia falar no chamado boca de ferro. Claro, sem amor á terra da gente, ela e nós, povo, não vamos a lugar nenhum; basta olhar a cidade de Macapá, vítima de uma Câmara manietada, mas também fruto da nossa falta de amor, da nossa falta de alto-estima e responsabilidade.

Em um cenário de conjunção de forças, pretendido pacto pelo Amapá, vamos ter que arranjar tempo para uma boa discussão sobre o orçamento do Estado, também apelidado de “Conceição”, para lembrar samba-canção de Jair Amorim (“se subiu ninguém sabe/ ninguém viu”) - cerca de dois bilhões e meio de reais; passa pela questão dos recursos destinados aos poderes, frontalmente acima da realidade de um Estado, cuja Capital tem apenas 3% de rede de esgoto, o serviço de água não atende a demanda e a coleta de lixo é uma tragédia urbana. Outro mistério são as emendas dos parlamentares e as transferências de recursos federais que não luzem no Amapá.

Também não vejo como discutir saídas para o crescimento das atividades econômicas no Estado, para geração de emprego, renda e bem estar da população, se a classe política não desistir do preconceito, da ambição que faz da política mero balcão de negócios, lugar comum das pessoas insensíveis aos problemas sociais que se avultam na medida em que a migração descontrolada, em nosso caso, cobra nas ruas escuras da cidade, ou sob sol a pino do meio-dia, o preço que pode enlutar nossas famílias.

Para deixarmos o terreno escarpado das acusações mentirosas, que se repetem a cada nova eleição, para colocarmos uma pá de cal na velha e miserável cartilha dos políticos atrasados e inescrupulosos, que não trabalham e vivem de acordos espúrios; para acabarmos com a relação promíscua dos governantes com as elites e descontarmos o atraso imposto por vários desgovernos, precisamos de uma atitude despojada em relação à exploração racional dos recursos naturais do Amapá. E isso é desenvolvimento sustentável.

Na pata do boi é que não vai.