ELEIÇÕES: A LEI E A BURLA
João Silva
Neste País injusto, de tantas desigualdades, onde rádio,
televisão e jornal em mãos de políticos aprofundam
a diferença em prol dos seus aliados e parentes candidatos,
eu quero ver como a Justiça Eleitoral vai fiscalizar as eleições
municipais deste ano no Amapá.
Abacaxi nas mãos para descascar, Presidente do Tribunal Regional
Eleitoral pede ajuda ao eleitor e a imprensa, sem considerar que políticos,
na grande maioria dos casos, são os donos dos meios de comunicação
social em nosso Estado.
Não é de hoje que reclamo da redoma em que vive grande
maioria dos magistrados que vêm trabalhar no Amapá, gente
que merece nosso respeito, tudo bem, mas que parece insensível
ao clamor da população, mesma população
que paga impostos e atraentes salários que percebem para aplicar
a lei e distribuir justiça aos cidadãos.
Eu não sou magistrado, por dever de ofício não
estou responsável pela fiscalização do pleito,
mas não sei como fazer uma denúncia envolvendo um manda
chuva ou um outro candidato ostentando laços familiares e partidários
com os donos dos meios de comunicação ou com Governo
do Amapá, que é o grande arrendatário dos serviços
de comunicação social no Estado.
Com um pouquinho de atenção – não é
preciso muito esforço, basta olhar o que já está
acontecendo em Santana, em que campanha ostensiva, através
das emissoras de políticos do PMDB, trabalha as chances do
candidato do partido a prefeito – tal “onda verde”,
que começa a incomodar, a selar a sorte dos adversários
desprovidos de palanque eletrônico, como Sebastião Rocha
(PDT) e Antônio Nogueira (PT).
Os políticos usam o rádio e a televisão para
saltar na frente, para burlar um dos princípios que sustentam
uma eleição livre e democrática, a igualdade
de condições, algo garantido pela Constituição
e a lei eleitoral. É uma prática que atenta contra a
legitimidade das eleições, dos seus resultados e faz
parte da cartilha dos políticos passados na casca do alho.
Foi José Sarney que começou isso ao se empanturrar
e empanturrar os amigos de rádio e televisão à
época em que presidiu o País – e todo cidadão
medianamente informado sabe disso. Ele fez, no Maranhão, seu
próprio império e por aqui goza do império que
propiciou aos amigos, e continua propiciando.
Grave, gravíssimo, o que se faz com esses preciosos instrumentos
que constituem os meios de comunicação social, concessões
públicas que nestas horas poderiam ajudar o País exercendo
papel cívico e pedagógico junto ao eleitor precisando
de orientação; infelizmente o que prevalece é
a utilização dos recursos de mídia para consolidar
projeto pessoal, como pode ter sido caso da compra da TV Record, até
hoje muito mal explicada.
Para fiscalizar os políticos, seus impérios de comunicação
nas eleições municipais deste ano, vai ser preciso mais
que a ajuda do eleitor; vai ser preciso que o Tribunal Regional Eleitoral
lance um olhar incisivo sobre determinadas empresas jornalísticas
claramente a serviço do poder econômico, querendo influenciar
em favor dos seus interesses, das suas coligações e
dos seus candidatos preferidos.
Sobre a redoma dos magistrados, algumas decisões recentes
parecem corroborar com a tese, porque só fizeram piorar a vida
dos amapaenses, cujo clamor e direito não foram levados em
consideração pela interpretação fria da
lei, casos da manutenção dos camelôs no passeio
público, aumento na passagem de ônibus e condenação
da grave da saúde.
Até onde permite a imparcialidade diante dos fatos, eu sei
que a saúde do Amapá, já faz algum tempo, não
é exemplo de gestão; vive sob ajustes de conduta que
nunca são cumpridos, e que três secretários passaram
pelo sistema em condições melancólicas nos últimos
cinco anos. O quarto secretário, Pedro Paulo Dias de Carvalho,
tem demonstrado boa vontade, mas o quadro continua temerário.
Filas intermináveis, mortes de crianças e infecção
hospitalar assustam; há escassez de medicamentos, de leitos,
de servidores; e ainda persistem óbices que fazem parte da
rotina no sistema de saúde pública do Estado; nada disso
poderia ser ignorado, nem os anseios dos grevistas por uma saúde
melhor e por melhores condições de trabalho.