UMAS E OUTRAS DO NENA LEÃO

João Silva

O brasileiro desliga no carnaval e o delegado Antônio Cardoso, uma das figuras mais populares da Polícia Civil do Amapá, ex-secretário de Segurança Pública, que não é besta, também desliga. Pra ele carnaval é carnaval, e pronto, não se fala mais nisso.

Não passa na frente da 6ª DP nem que a vaca tussa; não quer saber de briga de vizinho, de instaurar inquérito, de interrogar trambiqueiro; prender meliante, ouvir queixa contra ladrão de galinha nem pensar! E se falar em boletim de ocorrência, a pressão sobe, ele passa mal e pode ter um treco.

Com aquele jeito de delegado vaselina (e ele não é, justiça seja feita!), nesta época do ano sai de férias, pede uma folga para ao ofício de homem da lei, na Delegacia de Bairro do Trem, para virar folião de tempo integral: dorme, toma café, almoça e janta vestido com a fantasia do Bloco Unidos do Pau Grande.

Vendo aquele caboclo humilde, oriundo das Ilhas do Pará, em que tudo parece pequeninho, um malicioso de plantão poderia pensar: Como esse cara fica falando em pau grande? Claro que não tem nada a ver; vai tirando teu cavalinho da chuva porque estou falando de uma homenagem prestada pela família Morais Cardoso ao craque Garrincha e ao lugar em que nasceu o “Gênio das Pernas Tortas”.

Caso não saiba, que duvido muito, fica sabendo: foi na cidade de Pau Grande, interior do Rio de Janeiro, que Garrincha desembarcou no planeta para brilhar depois no Botafogo, na Seleção Brasileira; para correr o mundo com jogadas que encantaram, por muitos anos, a grande platéia do futebol. Foi bicampeão mundial de 58/62 e veio ao Amapá para se despedir dos amapaenses no início da década de 70, no final da sua carreira.

Quando parentes e amigos resolveram fundar uma instituição para abrilhantar o carnaval amapaense, em fevereiro de 1983, botafoguense que só o doutor Cardoso, diante de grande número de simpatizantes reunidos na casa da família, no Centro Comercial, foi curto e grosso: NESTE MOMENTO TENHO A HONRA DE DECLARAR QUE ESTÁ FUNDADO O BLOCO UNIDOS DO PAU GRANDE, EM HOMENAGEM A GARRINCHA!

Certo é que o bloco aconteceu, disse a que veio, encaixou legal, tanto que conquistou vários títulos de campeão do carnaval - doze se não me falha a memória, e segue muito bem nos desfiles da LIBA; este ano, então, o doutor Cardoso acertou na mosca ao decidir, com sua diretoria, levar pra Avenida a história do Nena Leão, o Pai-Pai, um cara e tanto...Flamenguista, Piratão, dono do Bar La Boheme!

Na verdade, a Diretória do Pau Grande deu uma lição nos dirigentes das grandes escolas que não valorizam o que somos, quem somos. Nossa terra tem centenas de cidadãos cuja história de vida poderia virar enredo no desfile da Ivaldo Veras, caso do compositor e poeta Jeconias Alves de Araújo, a cara do Bairro do Trem e do carnaval amapaense.

Essa discussão me remete ao “parto” doloroso - quase aborto, que foi a decisão de Piratas da Batucada em homenagear o companheiro Humberto Moreira. Parece que há uma coisa pernóstica, pejorativa que vive tramando, apequenando o Amapá, as pessoas que aqui nasceram ou que vieram pra cá e aqui se encontraram consigo mesmo, com a terra generosa que os abraçou para sempre.

O Bar Du Pedro, o Mercado Central, a Saudosa Maloca, tudo dá samba, contam histórias que pulsam as noites de Macapá com suas personagens encantadoras, caso de Nena Leão e do seu “reinado” atrás do balcão do La Boheme, onde as emoções enternecem a noite ao som dos bolerões, valsas e samba-canções que saem da velha vitrola para os corações dos casais de namorados, dos apaixonados, dos solitários...

...E tome saudade, tome romance e dor de cotovelo nas vozes de Miltinho, Reginaldo Rossi, Nelson Gonçalves, Bethe Carvalho, Ângela Maria, Ataulfo Alves, Emilinha Borba, Clara Nunes, Maysa, Agnaldo Rayol, Roberto Carlos, José Augusto, Carlos Alberto, Eduardo Araújo, Roni Von, Adilson Ramos, Leny Andrade, Maria Bethânia, Altemar Dutra, Silvio César, Orlando Silva, Caetano Veloso.

Nena Leão lembra um sucesso da noite de Macapá, a boate “O Corujão”, além de algumas brincadeiras do tempo em que a zona era longe pra caramba, como se dizia antigamente! O apelido de “Rei da Noite”, inspiração do radialista Arnaldo Araújo, tem tudo a ver com farras homéricas que consumiram boa parte da nossa mocidade; uma vez saímos pra fazer uma daquelas, eu, Nena Leão e Pia-Pau, massudo atacante da FIJO, que tinha um problema: qualquer despesa ele fazia questão de pagar por bem ou por mal.

Naquele dia chuvoso, dez horas da noite, o trio chega de táxi ao “Merengue”, em área que ficava por trás do Hospital São Camilo, que não existia na época; era um salão em que se dançava e se arrumava companhia de segunda a domingo; o motorista então anuncia o preço da corrida do centro até ali, e o Nena Leão se antecipa: Essa eu pago, Pai! - se referindo ao Isidoro (Pia Pau), que alertou - Não, Pai, quem paga sou eu!

Daí é que o Nena insistiu, sem perceber que meu silêncio era um aviso, eu que conhecia bem o filho do velho Pia Pau; diante de tanta insistência, o Isidoro não contou parada: meteu a cabeça no Nena Leão diante do taxista assustado e o jogou de peito na lama, após o que se dirigiu a mim para perguntar o que eu já esperava: E tu, Balalão, queres pagar a conta também? Claro que disse sonoro, NÃO!

Sobre Nena Leão tem também aquela do Jamil Valente, freqüentador assíduo do La Boheme nos dias de sábado; cedo lá estava conhecido advogado sempre bem acompanhado, sorvendo mais uma dose de uisque sabidamente abaixo da quantidade devida, apesar de custar o olho da cara; o Jamil achava ruim, mas ficava na dele, pra não perder a pose e amigo de longas datas.

Um sábado no mundo, movimento encerrado, apurado no bolso, o Nena convida seu último cliente para uma esticada a badalado cabaré de Macapá, já na madrugada de domingo; eventualmente sozinho, sem amor e sem carinho, Jamil Valente aceita e leva o Pai-Pai no seu carro; chegam ao dançará e se acomodam em mesa próxima ao bar, de onde acionam o garçon, sujeito magro, cara de poucos amigos: ambos pedem uma dose de Royal Label.

A bebida é trazida em copo de azeitona; o Nena olha a merreca de uisque no fundo do copo, se sente explorado, reclama para o garçon bem debaixo do bigode do Jamil Valente que aproveita para desabafar olhando bem no olho do “Rei da Noite”: Pois é, Pai, dói, está vendo como dói, Pai?!

Brincadeira de lado, o Pai-Pai merece, e como merece...


João Silva - 62 anos, jornalista amapaense.