ATENÇÃO, PIGUNÇOS!

João Silva

Em um País tropical e bonito por natureza, quem sou eu pra condenar aquela cervejinha bem gelada, aquela jengibirra em noite de marabaixo ou um uisque envelhecido em tonéis de carvalho, quando se trata de colorir a vida por ai, bote tempo sem saber o que é isso, já que meu fígado não permite e ainda quero ficar por aqui um pouquinho mais, se for possível.

Portanto, quem quiser encher a cara pode, não foi proibido; o que não pode é um sujeito cara de pau pensar que todo pode depois do primeiro gole, inclusive beber e dirigir, coisa que pode levá-lo a uma infração, a um atentado contra a própria vida e a vida dos seus semelhantes circulando nas estradas ou nos centros urbanos.

A lei seca é contra o indivíduo que bebe dirigindo, felizmente acrescida do rigor necessário, até porque já estava passando da hora; bom seria se pudesse recuperar o tempo perdido, reviver centenas de milhares de vidas preciosas que se esvaíram em fatalidades provocadas por motoristas embriagados.

O Brasil não podia mais conviver com tantas mortes, com tantas pessoas inutilizadas, com tanta gente impune, sem pagar nada pelos prejuízos provocados aos outros e ao País. Felizmente, o legislador colocou a mão na consciência e fez a legislação brasileira dá uma guinada importante contra indivíduos que podem matar e morrer no trânsito por ingestão de bebida alcoólica.

Nova redação do artigo 306 do Código Brasileiro de Trânsito, por exemplo, estabelece que, conduzir veículo automotor na via pública, apresentando concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a seis decigramas, ou sob influência de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência, corresponde a um crime punível com detenção de seis meses a três anos.

Bom mesmo em termo das alterações introduzidas no sentido de endurecer a lei, é que a nova redação do artigo 277 permite que a infração prevista no artigo 165 do Código (dirigir embriagado), poderá ser caracterizada pelo agente de trânsito mediante obtenção de outras provas admitidas em direito, como notórios sinais de embriaguez, excitação ou turpor.

Fortalecida por via das alterações que se faziam necessárias agora toda pessoa bem intencionada tem dever de participar do esforço para que a lei seja cumprida, para que se dissemine em nossa sociedade o respeito a esse diploma legal que vai poupar muitas vidas no Brasil, no que vai depender muito do Governo, da Justiça e do Ministério Público, que zela pela aplicação correta da lei.

Precisamos desenvolver hábitos de uma sociedade responsável, como ocorre nos paises do primeiro mundo, em que o cidadão deixa o carro na garagem quando decide ir à balada com os amigos ou com a família. Isso é um charme; mau exemplo é alguém que se embriaga ao volante pensar que é um charme circular por ai com a garrafa do uisque que o consome e poderá consumir a vida dos outros.

No Brasil carro é um objeto de ostentação, um luxo que ricos ou novos ricos gostam de exibir, ao invés de deixar em casa por algum momento que seja, enquanto vão aos bares, boates, shows para consumir bebida e diversão; claro que esses indivíduos arrogantes, insensíveis, dependendo da sua importância na sociedade, já estão arrotando contra a lei, contra sua aplicação.

Na Avenida que serpenteia a frente da cidade, em cima da calçada que deveria ser do povo, como é a praça, existe o reduto do carro-bar - isopor e porta mala até a boca de bebida alcoólica e som acima dos decibéis permitidos, tocando brega rasgado até altas horas. Dali, pilotos “turbinados” saem pra dirigir seus carros contra a gente.

Carro-bar é uma invenção suicida, crônica em preto e branco da tragédia mais que anunciada, daquelas que todo mundo enxerga, mas ninguém toma providência, inclusive quem deveria fazê-lo, tais autoridades competentes. Vários deles em dias de shows no Sambódromo proporcionam uma mistura explosiva de cigarro, celulares e bebida alcoólica a poucos metros das bombas de um posto de gasolina localizado próximo ao Estádio Zerão.

Para contar uma história de sangue no asfalto, ali da Vieira Souto tucuju, que Deus nos livre e guarde, não faz muito tempo, madrugada de domingo, partiu um carro-bar fatal dirigido por motorista bêbado levando amigos de aventura, jovens que morreram mais adiante em pavoroso acidente que poderia ter sido pior, se testemunhas não tivessem saído a tempo da trajetória daquele bólido assassino a cem por hora.

As estatísticas sobre embriaguez e mortes no trânsito são horrorosas e o País perde com isso; estudo retrospectivo abrangendo todos os casos de morte por acidente de trânsito em 1999, revela que aproximadamente 50% dos óbitos estavam associados ao uso de álcool; o usuário também perde porque o uso abusivo do álcool interfere em termos individuais, seja em seu entorno social imediato ou na sociedade em que vive.

Segundo especialistas do Centro de Informação sobre Saúde e Álcool - CISA, as conseqüências dessa tragédia vão além: produzem efeitos negativos sobre a economia, pois exige investimentos maciços no sistema de saúde (clinicas, hospitais, pronto atendimento), na fiscalização e no aparelhamento do poder judiciário. Convenhamos, um problema e tanto, que tende a reduzir com a aplicação da lei.