CAMPEÃO DO CLASSIVENDAS

João Silva

Franqueza não faz mal a ninguém. É um dos “combustíveis” que mantém acesa minha carreira na imprensa, entre outros, ao longo de tantos anos, desde que entrei pela porta da frente do semanário A Voz Católica, em 1966, para ingressar no jornalismo, onde estou até hoje, a meu modo e estilo, sem arredar pé das minhas convicções.

E falar com franqueza sobre rádio bem feito me dá prazer, já que o rádio é uma das paixões da minha vida, embora não pareça. “Falar na latinha” - diria Luca Roberto, talento revelado pelo rádio do Amapá nos anos 70 -, “fascina e aprisiona a quem se aventura por essa emoção”, embora não tenha ele mesmo se deixado aprisionar, face razão pra lá de estimulante: o salário de técnico da Receita Federal, em Belém do Pará.

Infelizmente o rádio desfigurou-se, virou um bazar eletrônico em que a competência de alguns poucos se perde na pequena multidão de políticos, de candidatos a cargos eletivos, seus prepostos, aduladores profissionais e outras figuras, incluindo pregadores apoplécticos e estreantes inusitados.

E tome promessa de cura e felicidade, tome brega rasgado, batidão e anuncio de festa o dia inteiro; quem paga fala e, se for bom menino, segura a barra, porque “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, como diria dono de emissora cuja linha editorial é uma pérola, segunda qual tudo pode, menos fazer critica ao senador Sarney.

Não sou convidado do velho e bom Raul Gil, mas já deu pra perceber que desejo tirar o chapéu para alguém do rádio, no caso o radialista George Guimarães - boa formação, quarenta e cinco no máximo, mais de vinte anos de estrada, presumivelmente, dos quais mais da metade trabalhando na rádio Amapá FM.

Gosto musical apurado (Chico Buarque, Caetano, Elza Soares, Elis Regina, Gilberto Gil, Nana Caymmi,Vinicius, Gonzaguinha e outros), bom português, boa pronuncia em inglês, comentário sempre bem colocado, lembro que George abriu caminho no rádio com “Mesa de Bar”, uma bela sacada que ainda é levado ao ar pela Amapá FM, infelizmente destituído do brilhantismo da sua fase áurea.

O programa teve o mérito de acolher e valorizar a prata da casa, e naquilo que ela tem de melhor: Zé Miguel, Osmar Junior, Amadeu Cavalcante, Patrícia Bastos, Naldo Maranhão, Joãozinho Gomes, Val Milhomen, Grupo Pilão e outros; cresceu tanto que em várias ocasiões saiu dos estúdios da emissora para ser transmitido do SESC, dos restaurantes e dos bares da moda, sempre com o calor e audiência do grande público.

Acontece que viviam conflitando duas vocações que agora parecem em harmonia nesse jovem fenômeno do rádio amapaense; uma que deu um tempo, a figura do competente apresentador de programa de MPB e MPA, para que aparecesse com toda força certo vendedor, a outra faceta, que no momento assume a alma do radialista.

O cara movimenta uma grana preta em negócios todos os dias, é um vendedor compulsivo, sabe como atrair o interesse de cada possível comprador, e vende de montão porque capricha na informação, não esquece do ano de fabricação, da marca do produto e das vantagens que oferece; muitas vezes conta história, explica porque alguém está querendo passar adiante alguma coisa, não sem um bege da melhor qualidade.

Uma das vantagens de anunciar na voz do Guimarães, é que ele o faz como se o negócio fosse dele mesmo e estivesse interessado em alugar casa, vender computador, fogão, geladeira, carro, fazenda, mesa de bilhar, bugiganga em geral; vende tudo, ou quase tudo. Imagino o que tem de histórias sobre esquisitice de ofertas que não pôde fazer em respeito ao público do rádio.

Ele mesmo não esconde que foi balconista, e um dia trabalhou sob as ordens de comerciante mão-de-vaca. O homem proibia servir cafezinho aos fregueses, mas nos cochilos do orelhudo, Guimarães não só servia cafezinho aos clientes que atendia, mas pedia que espalhassem a notícia; fez tanto sucesso que movimento melhorou, o patrão soube, ficou contente e adotou a gentileza como moda da casa.

Então, é assim: quem está ligado, sabe: nas ondas do rádio ninguém vende mais ou anuncia melhor que a simpatia do George Guimarães, que há algum tempo deixou a emissora de Phellipe Dao - e até faço uma idéia por que. Agora trabalha com o empresário José Alcolumbre, na 99,9 FM, que viu nele talento que sua emissora e o rádio não podiam prescindir. Ainda bem.