O SIGNIFICADO
DO ATO DE MARINA SILVA
A saída
da Senadora Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente, mesmo
tendo repercutido na sociedade como não ocorreu com qualquer
dos outros ministros que deixaram o governo, não surpreendeu
os que conhecem a sua história, trajetória política
e compromisso com a causal. Marina se investe desses atributos com
a naturalidade com que o Amazonas percorre seu curso, dos Andes até
o Atlântico.
Neste momento
em que as ondas de seu ato ainda se propagam na sociedade, no governo
e, em particular, nos movimentos sociais, há uma natural tentativa
de se buscar as causas e os significados possíveis de sua saída
para além dos sentimentos que ela evoca. Intencionalmente ela
atirou a pedra sobre a aparente placidez do lago, justamente para
que tudo voltasse a se movimentar, depois da constatação.
Mesmo entre os
que fizeram parte de sua gestão, há aqueles que vêem
e tentam fazer crer que sua saída deve ser reconhecida como
uma derrota frente à hegemonia dos setores de governo que não
compreendem a agenda ambiental, senão como mero corolário
de um projeto desenvolvimentista. Uma vez que, mesmo em presença
de uma Ministra da estatura moral e ética e com o reconhecimento
nacional e internacional de Marina Silva, não se conseguiu
internalizar o meio ambiente como fator estratégico de governo.
Ao contrário, sua gestão foi marcada por um permanente
estado de tensão com os tomadores de decisão em outras
pastas e no núcleo de governo da Presidência da República.
Esta avaliação,
ainda que assentada em fatos reais, voluntária ou involuntariamente
faz coro com setores predominantes da “grande mídia”
que, na impossibilidade de um ataque frontal a ministra, sempre quis
tirar proveito das limitações e dubiedades do atual
governo, atribuindo-lhe, de um lado, sempre o papel de vilão
e, no outro lado da mesma moeda, apresentando a ministra como vítima.
Assim, fundamentalmente, a falta de avanços da questão
ambiental no País deve-se a uma falta de compreensão,
compromisso e determinação do governo. Pode-se concluir,
portanto, que havendo um governo com justa compreensão sobre
a questão ambiental e com mais compromisso e determinação
que o governo atual, poderá o País, enfim, trilhar o
caminho do desenvolvimento sustentável, com o reconhecimento
final do meio ambiente como um de seus eixos estratégicos.
Aos defensores
desta tese o que mais incomoda é o fato de não terem
conseguido fazer tudo o que pretendiam, mesmo tendo Marina Silva a
frente do Ministério. Daí o sentimento de derrota que,
segundo eles, é necessário reconhecer como condição
de se caracterizar o que se tem pela frente a enfrentar no atual governo,
ao qual é atribuída quase que exclusivamente as razões
da insustentabilidade da gestão da ministra.
Essa explicação
tem a vantagem de casar uma pretensa racionalidade com o sentimento
de solidariedade, dividindo o mundo em dois lados e atribuindo as
vicissitudes ao “outro”, personalizando a “vítima”
e o “algoz”, não sendo difícil se prever
qual seria o diagnóstico e o prognóstico de tal tese.
A derrota, nessas circunstâncias, transforma-se na condição
e trunfo necessários para fazer realçar, de um lado
as qualidades e a abnegação dos conscientes e compromissados
em sua luta inglória, de outro lado os que não conseguem
entender a questão ambiental e querem o desenvolvimento a qualquer
custo.
Essa personificação
é típica do voluntarismo da pequena burguesia urbana,
para a qual o fazer é uma mera decorrência das vontades
das pessoas e de governos. De fato, para os que, ao ingressarem no
governo, traziam apenas a agenda ambiental na cabeça e confiavam
que a presença de Marina Silva, mais a força e competência
das organizações que pretendem representar, seriam suficientes
para implementá-la, o significado de sua saída como
uma derrota é conveniente. Ressalta a idéia de antagonismo
entre compromissados e abnegados de um lado e descompromissados e
trogloditas de outro.
A própria
carta da Ministra ao Presidente, bem como as seguidas declarações
feitas, entretanto, não nos permitem a comodidade dessas explicações.
Ao reconhecer que “a pedra que precisava mudar” era ela
própria, para que as mudanças prosseguissem. Ao afirmar
que “dos gestos, para que não se transformassem em um
inútil gesticular”, era preciso partir para um ato, cuja
radicalidade provocasse o governo e a sociedade a repensarem o próprio
significado da sustentabilidade política do meio ambiente e
do desenvolvimento sustentável, Marina aponta para o desafio
de um novo marco civilizatório.
Marina Silva reconheceu
que sua permanência na posição de ministra a incapacitava
de mobilizar o governo e a sociedade para manter o ritmo das mudanças
e a própria revitalização das forças que
disputam os rumos do governo e do país. Deixou evidente que,
não obstante as limitações próprias do
atual momento histórico há conquistas significativas
de sua gestão que precisam ser preservadas e consolidadas,
justamente por incidirem sobre interesses hegemônicos do modelo
de desenvolvimento vigente há séculos no País.
Mudanças apenas na escala e no ciclo das commodities ditadas
pelo mercado internacional, fizeram com que as reações
disfarçadas e aparentemente pontuais se tornassem abertas e
sistemáticas, tornando evidentes os próprios limites
do governo, ao ponto de desequilibrar em favor das oligarquias o próprio
papel de mediador até então exercido pelo presidente
da República.
E que conquistas
são essas? A mais radical delas é seguramente a Resolução
3.545, de 29 de fevereiro de 2008, do Conselho Monetário Nacional,
que “Altera o MCR 2-1 (Manual de Crédito Rural) para
estabelecer exigência de documentação comprobatória
de regularidade ambiental e outras condicionantes, para fins de financiamento
agropecuário no Bioma Amazônia”. Essa medida, na
verdade, sintetiza o conjunto das que a precederam e que com ela se
articulam:
• O Zoneamento
Ecológico Econômico como instrumento de gestão
das políticas fundiária, agrícola e creditícia;
• o combate ao desmatamento, com destaque para o DETER –
Detecção de Desmatamento em Tempo Real;
• as ações conjuntas do IBAMA, Polícia
Federal e Exército no combate ao crime organizado ruralista
travestido de “empreendedorismo”;
• o desmonte das quadrilhas que agiam dentro do IBAMA e dos
órgãos estaduais de meio ambiente;
• a criação de unidades de conservação
na frente da área de expansão das fronteiras agrícolas,
especialmente em Mato Grosso, Pará e Rondônia.
• o Plano Nacional de Combate à Desertificação;
• o Plano Nacional de Recursos Hídricos;
• a definição das Áreas Prioritárias
de Conservação da Biodiversidade;
• a realização de 3 Conferências Nacionais
de Meio Ambiente;
• a criação de mais de 20 milhões de hectares
de novas unidades de conservação;
• a conclusão do Zoneamento Ecológico e Econômico
costeiro marinho;
• o Portal do Licenciamento;
• a criação de mecanismos de diálogo, resolução
de conflitos e de ações conjuntas, com a implantação
de 27 comissões Tripartites, reunindo União, estados
e municípios;
o Plano Amazônia Sustentável;
• licenciamentos exemplares como os da BR 163 (Cuiabá-Santarém),
e do São Francisco, precedido pelo Programa de Revitalização
de Bacias.
Para os ruralistas
monoculturistas e latifundiários, acostumados a não
verem limites aos seus interesses e poder desde a época das
sesmarias portuguesas, essa resolução foi a gota d’água,
ao lado da publicação da lista de municípios
“campeões do desmatamento”. Parodiando o bordão
do presidente Lula, “nunca antes na história do País”
os ambientalistas foram tão longe, ao ponto de invadirem o
sagrado espaço do Conselho Monetário Nacional. Instituição
vetusta, cujo acesso normalmente só era permitido aos representantes
do capital financeiro.
A simples ameaça de fazer valer o princípio constitucional
do Art. 170 da Constituição Federal, fez com que os
donos de poder, baseado nos oligopólios do agrobusines, recorressem
aos seus governadores para que estes fizessem observar junto ao presidente
da República a supremacia das “Leis de Mercado”
e do “superávit da balança comercial” sobre
quaisquer outras leis invocadas pelos “xiitas do meio ambiente”.
Donos do poder pouco acostumados ao império de qualquer lei,
motivados por seu ódio atávico e por seus interesses
mais imediatos. O artigo trata da Ordem Econômica e Financeira,
”VI – defesa do meio ambiente, inclusive tratamento diferenciado
conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus
processos de elaboração e prestação”.
Seja qual for
o destino dessas conquistas, não há como transforma-las
em derrota. Inclusive a demonstração de que é
possível licenciar sem se submeter à corrupção
ou ao descumprimento da lei, e sem dar espaço para as judicializações,
que atrasam tudo o que os licenciamentos rápidos e políticos
pretendem vender como agilidade. Transformar tais conquistas em derrota
só é possível para o voluntarismo pequeno-burguês,
que faz questão de desconhecer o contexto das disputas sobre
os rumos do governo e do País e, mais que isso, do projeto
de nação e desenvolvimento que interessa à justiça
social, à sustentabilidade econômica, social e ambiental
em escala nacional e planetária.
Senão
vejamos: o contexto em que se desenrolam tais disputas é o
de um País onde ainda prevalece a desigualdade social, com
75,4% da renda nacional concentrada nas mãos dos 10% mais ricos
da população; onde, não obstante a abolição
formal da escravidão ainda no século XIX, “empreendedores”
do século XXI ainda a praticam nos estados da Amazônia,
inclusive utilizando mão-de-obra infanto-juvenil; onde os “fazendeiros”,
mandantes de centenas de assassinatos contra “sem-terras”,
padres, freiras, sindicalistas, posseiros, ambientalistas e políticos
comprometidos com as causas destes, permanecem todos impunes, comprovando
que estão acima de qualquer lei; onde as marcas da escravidão
e do genocídio das populações indígenas
ainda teimam em sobreviver no preconceito que se disfarça no
pluralismo étnico, mas que não consegue esconder o pagamento
de salários diferenciados e, principalmente o acesso aos serviços
públicos mais elementares da cidadania; onde se consegue transformar
o domínio dos territórios dos povos indígenas,
necessários para um modo de vida sustentável que se
mostrou eficiente nos últimos 18 mil anos, em “latifúndios”
pelos quais se compara com o “sacrossanto” direito de
propriedade dos “empreendedores” nacionais; e onde as
próprias nações indígenas que jamais ameaçaram
nossas fronteiras, muito pelo contrário, ajudaram a conquistá-las
e preservá-las, agora, por ameaçarem as fronteiras de
arrozeiros, usineiros e madeireiros do grande capital, são
vistas como ameaça à segurança nacional por representativos
setores da “grande mídia”, dos congressistas, das
forças armadas, dos governos municipais, estaduais e nacional
e dos ruralistas sesmeiros desde sempre.
Não obstante
as conquistas alcançadas na atual gestão do Presidente
Lula, especialmente nas políticas econômica, de inclusão
social e de direitos humanos, é inegável que o contexto
predominante em que se realizam as disputas pela construção
de um Estado Democrático de Direto é o de uma sociedade
conservadora, na qual os valores que ditam a política estão
sob a hegemonia de uma elite reacionária que está muito
longe de ser vencida.
Por desprezar
o contexto desta sociedade marcada por mais de trezentos anos de escravidão,
uma Republicana em que predominam os períodos autoritários
e ditatoriais, com pequenos espasmos democráticos, é
que a maior parte dos movimentos sociais acreditou que ao ajudar a
eleger o presidente da república havia conquistado o comando
do Estado, desequilibrando o jogo do poder a seu favor. Esse equívoco,
aliado à tradição autoritária predominante
na “esquerda”, fez com que alguns setores ficassem estáticos
perante o avanço da “direita” e do “centro”
sobre postos chaves do governo, logo nos dois primeiros anos da atual
gestão.
Acreditavam ser
possível promover grandes transformações a partir
do controle do aparelho do Estado por “uma vanguarda”
ou, modernamente, por “lideranças comprometidas”.
Uma vez verificada a impossibilidade de se imporem rápidas
e radicais transformações, de cima para baixo, a partir
do Estado, outra parte desta “esquerda” abandonou o governo
e o PT; uma minoria, porém expressiva pelos postos que ocupava,
simplesmente sucumbiu ao poder de corrupção do Estado,
sob os ditames de uma “moral revolucionária” para
a qual os fins justificam os meios, inclusive os interesses pessoais
dos pretensos “revolucionários”; e a maioria deixou-se
ficar acomodada à segurança das “casamatas”
conquistadas, ou aos pequenos oásis de esperança.
É nesse
e não noutro contexto que se desenvolveram os embates em torno
do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável enquanto
políticas de governo e de Estado. Daí o significado
das conquistas, que não podem ser reduzidas, como pretendem
alguns, às medidas do idealismo voluntarista pequeno-burguês
de que o “querer é poder”. A elisão do contexto
é que permite a exclamação do derrotista: “Ah!
E olha o que deixamos de fazer tendo como ministra a Marina Silva!”.
Isto para ressaltar, é óbvio, a falta de compromisso
de Lula ou o conservadorismo de Dilma e de Ministros como o da Agricultura.
A dupla ou múltipla personalização aqui não
é gratuita, pois ela traz o benefício de excluir os
“compromissados” de quaisquer responsabilidades.
No contexto brasileiro,
essa forma de fazer política sem povo, ou seja, que prescinde
da atuação majoritária da sociedade civil organizada
para promover as grandes transformações históricas,
inclusive aquelas em favor da conservação do meio ambiente
e do desenvolvimento com sustentabilidade, está fadada ao fracasso
e o destino de seus defensores, voluntários ou involuntários,
é o muro das lamentações.
Vivemos numa sociedade
para a qual o meio ambiente é, no máximo, uma preocupação
ainda difusa, cuja maioria da população vive sob os
imperativos da sobrevivência; num cenário ainda marcado
pela pobreza, violência e exclusão. Diante disso, atrevo-me
a dizer que nem Madre Tereza de Calcutá ressurreta como ministra
e o próprio Papa como secretário-executivo do MMA poderiam
avançar sem que a voz do povo nas ruas e nos campos do País
possa contrabalançar com os sussurros dos governadores e políticos
ruralistas nos ouvidos do presidente e de seus assessores. E registre-se
que o Papa, do alto de sua autoridade espiritual, já tem feito
apelos que, tudo indica, não têm sido ouvidos pelos seus
fiéis do agrobusines, do latifúndio e da monocultura
no Brasil.
O reconhecimento,
pois, da gravidade do contexto que terminou por limitar e acomodar
as pedras na presente gestão, este sim é condição
para uma avaliação realista da magnitude dos desafios
a enfrentar e do inevitável recurso à mobilização
social para se avançar nas mudanças, inclusive na área
ambiental. Nestes tempos de mistificações em que se
distribuem títulos de “pais” e “mães”
disto e daquilo, fazendo parecer que as conquistas são concessões,
mais do que nunca, é preciso se afirmar que as verdadeiras
conquistas, aquelas das quais não se pode retroceder, só
são garantidas quando, independente deste ou daquele governo,
o povo as imprime nas páginas da história.
O ato da Senadora
Marina Silva, corajoso e generoso, se destina, é verdade, a
provocar o governo para que não recue frente aos interesses
daqueles que se recusam a ceder ou sequer pensar em mudar sua forma
de produzir e acumular riquezas. Porém, desafia principalmente
a sociedade a retomar seu papel para que a história se movimente
com a sua participação, sua marca e na defesa da vida
com qualidade e justiça para todos, cidadãs e cidadãos
do presente e do futuro. O fato de que sua saída repercuta
hoje tanto como a de um ministro da fazenda no passado indica que
ela não sai derrotada, pois, mesmo em meio ainda tão
inóspito, as conquistas feitas por muitos sob sua gestão
já não soam indiferentes. O governo agora está
nu: não poderá mais justificar seu compromisso ambiental
apenas com a presença de Marina e a sociedade civil organizada,
especialmente as organizações socioambientais, não
poderá mais se contentar em se ver representada. É preciso
sair das representações e gestos para a ação.
Elias Araújo