Rua dos Jambeiros
O calor aquieta a terra próximo do meio-dia. É ainda
mais denso quando deita implacável luz sobre o bairro Brasil
Novo, no extremo norte da cidade de Macapá. Um bairro dormitório,
de casas fechadas e mornas a esperar por seus donos que descem para
o centro da cidade, onde a vida corre atrás dela própria.
Há poucas pessoas nas ruas, muitas casas com placas de venda,
comércios nas esquinas esperando por um ou outro comprador. Há
igrejas igualmente fechadas durante o dia. Afinal, nem Deus suporta
a solidão do calor. Há um vazio estranho que deixa a amplidão
do bairro plano e seco ainda mais exposta à opulência do
sol.
No Brasil Novo todas as ruas têm nomes de árvores frutíferas.
Talvez uma sôfrega tentativa de salvar na palavra aquilo que o
homem se encarrega de extinguir, de não semear. E no meio desse
deserto aquecido, como em todo deserto há de haver, surge um
oásis de verde alegria. O nome da rua é Jambeiro e a dona
da casa se chama Leodete. Passo e percebo aquela senhora de estatura
baixa, negra, lenço na cabeça, lavando louça num
girau de madeira bem ajeitado na lateral do pátio. Diante do
girau uma armação que abriga um plantio de maracujá.
No centro do pátio uma mesa com quatro bancos em volta e uma
plantinha enfeitando o centro.
Um convite para sentar, um sorriso acolhedor e ela começa a
contar sua história. Há três anos chegou por aqui,
vinda da ilha do Marajó. Arriscar a sorte, mas com um pensamento
firme: "nunca gostei de ficar parada, gosto mesmo é de trabalhar".
Dá pra ver no capricho da casa simples, bem limpa e arrumada.
No início morava numa casinha de madeira coberta de lona. "Às
vezes o vento batia à noite e sacolejava tudo. Eu ficava apavorada",
conta ela. Começou a vender cafezinho na esquina de um mini-box,
depois veio a tapioquinha e o dinheiro deu para comprar uma segunda
garrafa térmica. Freguesia conquistada, simpatia também,
dona Leo recebeu uma proposta de troca: sua casinha de madeira ao lado
do mini-bix por uma de alvenaria em melhores condições.
Alma boa a de seu vizinho.
Foi então que ela resolveu aumentar os negócios. Quentinhas,
pratos feitos e sopas por um preço máximo de cinco reais.
Precisa ver o capricho na cozinha com as panelas reluzentes. A única
mesa do pequeno restaurante parece um altar à esperança.
Na borda do pátio muitas plantas, ervas medicinais e um pé
de crista de galo plantado na panela que foi utilizada para fazer a
primeira sopa. A vida de dona Leo não é e nunca foi fácil,
mas ela conta os episódios sempre com palavras de vitória.
Fala dos amigos com alegria, expressa gratidão pelas pessoas
que passaram por seu caminho.
Oferece um suco de maracujá e faz questão de dizer que
ela mesma plantou o pé. Uma delícia! "Passar fome
não passo. A vida é difícil pra todo mundo, mas
eu planto onde tiver um pedacinho de chão". É quando
ela mostra uma fileira de macaxeira no estreito corredor de terra que
contorna o muro da estação de água da Caesa, bem
ao lado de sua casa. "Um dia vieram uns homens e disseram que não
podia plantar aí. Não deixam a gente plantar pra depois
virar lixão". Apoiado dona Leo, esse negócio de "não
pode" é mesmo muito relativo.
Bem! A conversa estava boa, mas o sol anunciava o ápice do
dia quente. Hora de voltar pra casa, levando no coração
a boa conversa de dona Leo. Prometo voltar outro dia, à noite,
pra tomar a sopa, que naquela quentura não dava. E vou, pensando
sobre como é rica a vida das pessoas, como são importantes
os aprendizados, como é inútil não percebê-las.
Penso também que em cada rua daquelas o poder público
deveria plantar árvores frutíferas correspondentes aos
nomes. Uma rua cheinha de aceroleiras, outra cercada de jambeiros, mais
uma repleta de cajueiros e um bairro bosque cheio de sombras e vitamina
grátis.
Márcia Corrêa
17.08.07
marcia.cpc@uol.com.br